0# CAPA 5.8.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2437  ano 48  n 31
5 de agosto de 2015

[descrio da imagem: na parte bem inferior da capa aparecem imagens de algumas cidades do Brasil (Rio  Corcovado; Salvador  Elevador; Braslia  Congresso; So Paulo...). Ests imagens esto em preto, como se fosse noite. S tem luz no Corcovado, e algumas muito pequenas representando cidades, vistas de cima. Acima destas imagens, tomando todo o centro da capa, o mapa do Brasil, sendo que seus contornos, e tambm ao redor e partes internas, est representado por raios, de tempestade]
ECONOMIA
A TEMPESTADE PERFEITA
Inflao, Dlar e Juros nas alturas se combinam com a crise poltica.  o prenncio de muitos meses de estagnao econmica e desemprego para os brasileiros.
CENRIOS
Trs caminhos para atravessar a tormenta. S um leva ao cu azul.

[outros ttulos: parte superior da capa]
CHEGA DE SILICONE
As clnicas de cirurgia plstica j comearam a sentir os efeitos do novo padro esttico feminino, que pede seios pequenos.

CRUELDADE
A comoo mundial com o assassinato do leo Cecil, o mais querido da frica.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# ECONOMIA - ESPECIAL
4# BRASIL 
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 5.8.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  O REAL PROBLEMA DE LULA
     1#3 ENTREVISTA  JULIE LYTHCOTT-HAIMS  O FRACASSO FAZ BEM S CRIANAS
     1#4 LYA LUFT  O SENTIDO DAS COISAS
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM

AMBIO ESPACIAL
A Nasa anunciou na semana passada que a misso Rosetta encontrou ricos e inesperados compostos orgnicos no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. O achado  um dos primeiros frutos de uma nova era da aventura espacial, marcada pela retomada da ambio exploratria. Tendo deixado os projetos sem grandes desafios cientficos a cargo de empresas privadas, a agncia espacial americana passou a investir com fora na investigao de recncavos ainda enigmticos do cosmo, de que so exemplo, alm da Rosetta, as misses New Horizons (da indita jornada at Pluto) e Juice (para as luas de Jpiter). Reportagem do site de VEJA detalha como surgiu e aonde levar essa nova fase da agenda espacial, que inclui uma viagem tripulada a Marte e a intensificao da busca por vestgios da existncia de vida extraterrestre.

A VOLTA AO MUNDO DA LAVA-JATO
No rastro do petrolo, os investigadores da Operao Lava-Jato descobriram pegadas de corrupo, fraude e lavagem de dinheiro em pelo menos vinte pases, incluindo Estados Unidos, China, Portugal, Holanda, os vizinhos Uruguai, Peru e Bolvia e parasos fiscais como Mnaco, Bahamas, Liechtenstein e - escala decisiva do propinoduto - Sua. A Justia j obteve o bloqueio de 942 milhes de reais no exterior e repatriou 484,7 milhes de reais. Reportagem do site de VEJA mapeia os tentculos do petrolo mundo afora. 

A GARGALHADA COMO REMDIO
O mdico americano Patch Adams, de 70 anos, jamais usa jaleco. No dia a dia, veste-se com camisas extravagantes e pe nariz vermelho de palhao. O estilo faz parte do personagem que criou na dcada de 70 para praticar a medicina humanizada. Para ele, a gargalhada  um poderosssimo remdio. Os princpios do mdico inspiraram os "Doutores da Alegria" espalhados pelo mundo: grupos que visitam hospitais suavizando o sofrimento de pacientes. Em 1998, sua histria foi contada no filme Patch Adams: o Amor  Contagioso, estrelado por Robin Williams. Em entrevista ao site de VEJA, a poucos dias de sua visita ao Brasil, Adams explica a importncia do humor na medicina, critica a arrogncia dos colegas e diz que o filme com Robin Williams o deixou constrangido. 


1#2 CARTA AO LEITOR  O REAL PROBLEMA DE LULA
     Muitas vezes a imprensa revela fatos que, de outra forma, ficariam para sempre longe do efeito detergente da luz solar e, assim, chama a ateno das autoridades. Uma segunda vertente do trabalho jornalstico  descobrir fatos j em fase de anlise no mbito da Justia e dar conhecimento deles aos leitores. 
     A reportagem de capa de VEJA da semana passada  desse segundo tipo. Os reprteres de VEJA em Braslia descobriram que os advogados da OAS procuraram a Procuradoria-Geral da Repblica (PGR) para uma conversa inicial com o objetivo de conseguir o benefcio da delao premiada para Lo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira, preso em regime domiciliar por uma coleo de crimes de corrupo. 
     Os advogados informaram a PGR das principais revelaes que Pinheiro se dispunha a fazer. As mais relevantes, a respeito de sua relao especial com o ex-presidente Lula, haviam sido adiantadas por VEJA em sua reportagem de capa de 29 de abril. Sem que fosse contestada, a revista narrou detalhes da duradoura e mutuamente produtiva convivncia de Pinheiro e Lula, simbiose s interrompida com a priso do empreiteiro pela Lava-Jato. 
     Citando como motivo a reportagem de capa da semana passada, Lula est processando a revista. Est-se diante da clssica manobra de atirar no mensageiro, quando o que se quer suprimir  a mensagem.  
     Se VEJA no tivesse publicado sequer uma linha do que Lo Pinheiro quer contar em sua delao premiada, os fatos relatados aos procuradores permaneceriam os mesmos. Lula estaria no melhor dos mundos se sua maior dor de cabea fosse a perseguio que imagina mover contra ele a imprensa. Seria uma maravilha para Lula se as reportagens que o incomodam fossem apenas invencionices de jornalistas mal-intencionados a servio de causas ingratas. Isso   sumiria to rpido quanto surgiu. Mas, infelizmente para Lula, seu grande problema so fatos produzidos durante seu governo, por pessoas nomeadas por ele, com as quais privou de intimidade e at de amizade e que esto sendo presas ao ritmo de quase uma por semana. 
     Se por feitiaria todas as revistas e jornais que desagradam a Lula desaparecessem de uma hora para outra, os aborrecimentos do ex-presidente continuariam do mesmo tamanho ou, como est ocorrendo, aumentando a cada dia que passa. 
     Espetculos de fico s existem quando so observados. Os fatos continuam existindo mesmo escondidos. Um dia eles voltam a assombrar. Esse  o problema de Lula. 


1#3 ENTREVISTA  JULIE LYTHCOTT-HAIMS  O FRACASSO FAZ BEM S CRIANAS
A ex-reitora de Stanford diz que o overparenting, a obsesso dos pais de guiar e proteger seus filhos, criou uma gerao de "adultos-crianas" despreparados para o mundo.
STEPHANIE SACHS FEDER

No incio dos anos 2000, ento reitora da Universidade Stanford, Julie Lythcott-Haims comeou a notar algo curioso no comportamento de seus alunos. Estudantes de 20 e poucos anos, que em breve estariam formados e trabalhando nas melhores empresas, compareciam  sua sala invariavelmente acompanhados do pai ou da me. E, quando ela lhes perguntava o que queriam de seu futuro, olhavam para os pais em busca de uma resposta. Foi a partir dessa experincia  e da sua prpria, como me  que ela passou a estudar o overparenting, expresso americana para o hbito de proteger excessivamente os filhos. O fenmeno surgiu quando a gerao do ps-guerra, tratada com rigidez pelos pais, mas influenciada pela contracultura dos anos 60 e 70, decidiu criar suas crianas de forma diferente  menos rigor e mais amor, menos cobranas e mais compreenso. Os exageros na aplicao da frmula, argumenta ela, ajudaram a produzir uma gerao de adultos incapazes de decidir por conta prpria e com dificuldades de se adequar ao mercado de trabalho. Julie Lythcott-Haims deu a seguinte entrevista a VEJA, por telefone. 

A senhora afirma que esta  a primeira gerao de "adultos-crianas" da histria. Como eles so? 
Trata-se de pessoas que no se sentem capazes de tomar as prprias decises nem de lidar com contratempos e decepes. Ao primeiro sinal de problemas, pegam o telefone ou teclam para os pais para pedir orientao. Ora, um adulto , por definio, algum capaz de refletir e descobrir como lidar com determinada situao. 

Mas adultos tambm pedem orientaes e conselhos. A diferena  a frequncia com que os adultos-crianas fazem isso? 
A diferena  que fazem isso ao primeiro sinal de que algo no deu certo. A atitude de um adulto  refletir sobre uma questo, chegar a algum diagnstico e a, talvez, entrar em contato com algum em quem confie e dizer: "Estou com dificuldade para resolver essa situao. O que voc acha?". Dessa forma, o pensamento e a estratgia do indivduo passam a ser parte de algo que ele elaborou. Essencialmente, um adulto coloca questes a si mesmo antes de coloc-las a seus pais. 

Como pensam esses "adultos-crianas"? 
Eles tm pouca confiana em si mesmos. "Sou incapaz de fazer isso sozinho"  o pensamento recorrente  afinal, durante toda a vida, algum sempre fez tudo por eles. Na psicologia, isso se chama "desamparo aprendido", algo que vem da falta de conexo entre esforo e resultado. Nesses meus treze anos como orientadora em Stanford, vi muitos alunos que padecem desse mal  a ponto de no saberem sequer pedir orientaes na rua. 

E isso vale tambm para situaes profissionais? 
Sim, sobretudo para situaes profissionais. Numa empresa, as coisas no orbitam em torno do empregado e suas necessidades  o empregado no  o centro do mundo. O que se espera dele  que contribua para o crescimento da empresa e dos colegas  seja til, ajude antes que lhe peam, antecipe o que precisa ser feito. Ocorre que os pais desses "adultos-crianas" sempre determinaram o que eles tinham de fazer, e isso os impediu de desenvolver esse tipo de habilidade  pensar por si prprios e planejar o prximo passo. As consequncias de uma vida excessivamente gerenciada pelos pais se refletem de maneira muito acentuada no trabalho. 

Mas as prprias empresas no se adaptaram a esses "adultos-crianas", de certa forma? 
Sim, o exemplo perfeito aqui so as startups do  Vale do Silcio, que oferecem infinitos mimos a seus empregados. Eles trabalham muito duro, mas todo o ambiente  voltado para satisfazer a suas necessidades, incluindo a de diverso. A comida  preparada por chefs timos, as roupas de todos so lavadas l. Eu me pergunto: por que tantos adultos dessa gerao vo para a "terra das startups" e o mundo da tecnologia? Porque o local de trabalho foi adaptado para ser uma extenso da casa da infncia deles. Mas o que acontece se algum comea sua vida profissional num lugar assim e depois vai para um lugar tradicional? Certamente ficar muito desapontado. E talvez no consiga se adaptar. 

A senhora fala em trs tipos de pecado dos pais: o "superdirecionamento", a "superproteo" e a "superajuda". Pode explic-los? 
Os pais superprotetores so aqueles que acreditam que qualquer coisa pode machucar seus filhos e, por isso, preferem que eles estejam sempre dentro do seu campo de viso. Tomam sempre o partido das crianas contra quem quer que seja  o juiz do jogo de futebol ou o professor que as criticou  e costumam dizer que todo esforo dos filhos  "perfeito". Os que pecam pelo "superdirecionamento" so os que definem o que seus filhos devem estudar, como devem brincar, que atividades devem praticar e em que nvel, que faculdades valem a pena, que curso  melhor fazer, que carreira precisam seguir. Eles no s resolvem os problemas dos filhos como moldam seus sonhos. O tenista Andr Agassi  um exemplo tpico dessa criao. 

Por qu? 
Eu o cito apenas porque ele mesmo j disse: "Meus pais direcionaram demais minha vida". E isso fica claro quando se l a autobiografia do esportista. O pai de Agassi era to convencido de que o filho deveria ser jogador de tnis que transformou isso na misso de sua vida. Mas o garoto no amava o esporte. Ento, o que temos? Uma estrela do tnis, mas um tanto infeliz. Isso  comum quando as pessoas seguem trajetria profissional forada pelos pais  ou, simplesmente, para agradar-lhes. 

E como se caracterizam os pais da categoria que a senhora chama de "superajuda"? 
So os que acompanham as crianas em todas as atividades, no esporte ou na escola, e agem como seu concierge, at quando j so quase adultos. A me de uma estudante do 2 ano de Stanford, por exemplo, ligava todo dia para acord-la, e ainda tinha na prpria agenda todos os deveres e provas dela, para evitar que a filha perdesse os compromissos. 

Como os pais podem saber se caram na armadilha de confundir amor demais com cuidado excessivo? 
Em primeiro lugar, eles tm de aceitar o fato de que seu trabalho, como pais,  sair desse cargo algum dia. E que o objetivo  criar aquela pequena pessoa para que ela seja capaz de se cuidar. No se trata de largar os filhos no meio da floresta para que se virem. Mas, no sculo XXI, cuidar de si prprio significa escrever seu currculo sozinho, fazer uma entrevista de trabalho, arrumar um emprego. E ter as habilidades necessrias para manter-se empregado, ser capaz de trabalhar duro e em equipe, ganhar um salrio, pagar suas contas, ser gentil com os demais, descobrir como ir de um lugar a outro, cozinhar... E tudo isso sem ter de, a toda hora, perguntar  mame ou ao papai como se faz. Imaginar que algo pode fazer com que voc um dia no esteja mais aqui para ajudar seu filho  um bom exerccio: "E se alguma coisa acontecer comigo?". Nenhum de ns quer imaginar isso, mas  nosso dever como pais mamferos preparar nossa cria para esse triste dia. 

E no dia a dia? 
No h dvida de que os pais devem dar tanto amor quanto puderem aos filhos. As crianas querem ter certeza de que so amadas e valorizadas. Mas no  cruel pedir que os filhos auxiliem nos afazeres domsticos, por exemplo. Isso vai ajud-los a se desenvolver. O objetivo deve ser dar oportunidades para que desenvolvam sua independncia. Eu me lembro da primeira vez que pedi ao meu filho que fosse ao supermercado para comprar algo que eu tinha esquecido. Ele no queria ir. Falei que precisava da ajuda dele, que o percurso no era longo, que ele j tinha ido mais longe com os amigos. Ele foi e, quando voltou, estava orgulhoso de si mesmo. Foi uma conquista para ele e para mim. Pode parecer algo menor, mas para as crianas sempre h uma primeira vez. O papel dos pais  encontrar as oportunidades de oferecer a elas a chance de aprender. 

E como descobrir o limite a partir do qual dar independncia a um filho pode exp-lo a riscos? 
 difcil, mas  preciso deixar que as crianas vivam para que virem adultas. No podemos segur-las em nossos braos  a vida inteira, cobri-las com plstico- bolha e mand-las para o mundo inteiramente protegidas de tudo. Temos de fortalecer seu carter, sua determinao, seu senso de "eu me machuquei, mas estou bem". Pode soar cruel, mas  bom que as crianas se machuquem na infncia, e no falo apenas no sentido fsico. Porque  o nico modo de se tornarem resistentes e capazes de lidar com as questes quando crescerem.  um equilbrio sensvel. No h um manual que descreva cada passo. Mas  preciso que os filhos se tornem resistentes, preparados tambm para as coisas mais difceis que esto por vir. 

No Brasil, existe a "gerao canguru", composta de adultos de 25 a 34 anos que ainda moram na casa dos pais. Isso tem a ver com essa superproteo? 
No conhecia esse termo,  maravilhoso. Em tese, no h nada de errado no fato de filhos nessa idade morarem com os pais se no tiverem dinheiro para morar sozinhos em um lugar desejvel, por exemplo. O que est errado  se os filhos, nessa idade, no se comportarem como adultos  no ganharem um salrio, no contriburem financeiramente para a casa. Resumindo, se moram l e se comportam como se tivessem 11 anos, sem levantar um dedo para ajudar, sem gastar seu dinheiro nem sequer para ajudar no supermercado. 

H tambm os "nem-nem", que nem estudam nem trabalham. 
No estudar e no trabalhar  um desastre. No somente para aquela pessoa e sua famlia, mas para o pas em que elas vivem. So pessoas que no vo contribuir para a sociedade, no vo pagar impostos, no sero cidados teis.  um conceito assustador. 

Como os "adultos-crianas" vo criar os prprios filhos? 
No fao ideia, porque a gerao do milnio foi a primeira a ser superprotegida em massa. Os primeiros grupos de crianas que tinham a agenda toda feita pelos pais so os dos nascidos em torno de 1980. Logo, eles agora tm 35 anos. Muitos j tm filhos, mas ainda no sabemos como seus filhos esto se virando no mundo. Realmente espero que essa gerao empurre o pndulo de volta para a outra direo, para criar adultos competentes, confiantes e corajosos. 

Bob Dylan escreveu que "no h sucesso como o fracasso". At que ponto concorda com isso? 
O que todos os tipos de pais que protegem em excesso tm em comum  o medo do fracasso. Eles tm medo de que, se seus filhos passarem por um fracasso, a vida deles seja arruinada. E eles esto errados. Para aprender,  necessrio tentar, fracassar, aprender com isso. E a tentar de novo, fracassar de novo e aprender de novo, at finalmente ser bem-sucedido. So os pequenos fracassos da infncia que desenvolvem as habilidades, as competncias e a confiana dos adultos. O fracasso  talvez o melhor professor da vida, e ficamos mais fortes quando somos desafiados.  


1#4 LYA LUFT  O SENTIDO DAS COISAS
     Sempre procurei, tantas vezes em vo, encontrar o significado de tudo. Por exemplo, por que h pessoas boas e ms, por que as pessoas boas fazem coisas ms e vice-versa, por que entre pessoas que se querem bem pode haver frieza ou at maldade, por que... lista infindvel, ainda mais para quem tem um pouco de imaginao. A cada momento reinventamos o mundo, reinventamos a ns mesmos, reinventamos nossos afetos para que seja tudo menos doloroso. 
     Escrevendo sobre a situao do Brasil um pequeno livro que deve aparecer em breve, observo ainda mais intensamente o que acontece, tanta coisa inacreditvel, mas real. Assim reflito quase constantemente sobre todas as loucuras, baixezas, perigos, sustos, desalentos atuais, aqui e ali uma luzinha minscula que logo bruxuleia. Vai se apagar para sempre? Nada  para sempre. As coisas ms, as fases ruins, tambm ho de passar. Mas, no momento, no sou otimista. Falsidade, mentiras, arzinho superior e palavras fantasiosas sobre questes fundamentais, apontar o dedo para o adversrio, tudo  pior do que a dura verdade. Assustam-me discursos com que neste momento dramtico alguns negam ou diminuem a gravidade da situao, revelando-se o desvio de inacreditveis fortunas que deveriam atender o povo mais carente, a maior vtima desse desastre, um povo despossudo, sem as coisas essenciais que lhe tm sido negadas  no por uma fatalidade, mas por ganncia de quem j tinha uma boa fortuna, mas queria mais, e mais. 
     Hoje, os acusados reagem com ironias, ameaas, invenes: mas fizeram de ns um dos piores pases do mundo em quase tudo, sobretudo educao e segurana. Ningum assume sua responsabilidade, antes critica adversrios ou pases mais adiantados, como se fssemos todos uns pobres crdulos. Comeamos a perceber o que se passa no nevoento territrio da poltica que fragilizou a economia, e  cenrio de to grave incompetncia e irresponsabilidade. Na grande negociata nunca vista, quase todos tinham seu preo: no foi barato. Pouco sobrou para o brasileiro que ignorava esses fatos que atingiram seu bolso, sua esperana e suas possibilidades de uma vida decente. 
     A poltica influenciou e dominou nossa existncia nos ltimos anos, com gesto incompetente, pssimo planejamento, desorganizao nas contas pblicas, maquiagem do desastre que foi escondido de um povo mal informado porque mal escolarizado (no  por acaso que negligenciamos tanto a educao). A ptria-me desvia o rosto; ns, os filhos, largados na floresta como num conto de fadas sinistro. Os prprios investigadores das gigantescas fraudes, impressionados, admitem estar diante de tramas de dimenso e sofisticao nunca vistas. 
     A paisagem brasileira est de pernas para o ar: nada faz muito sentido, tamanho o escndalo. Para comear, os salrios com que tentamos manter uma vida honrada so patticos diante das cifras roubadas, apresentadas pelos competentes e corajosos investigadores. Irresponsabilidade e incompetncia comandaram as faanhas que esfacelaram o pas, agora rebatizadas de "malfeitos". Espantoso: os desvios no eram efetuados por bandidos oficiais, mas por grandes empresrios que admitem, talvez forados pelo medo, que, se no tivessem entrado no esquema de corrupo e pagado as irreais propinas, suas companhias teriam ficado "de fora" da roda dos mafiosos, prejudicando seus acionistas e trabalhadores. Quase todos afirmam com veemncia que de nada sabiam: viviam em outro planeta. No saber de nada passou a ser um triste refro. 
     Os investigados, denunciados e presos continuam protestando contra tamanha maldade: todos vtimas do lobo mau da Justia. Seus defensores encenam uma pera-bufa de delirantes explicaes: roubalheira mascarada de comportamento legal, nos parmetros da decncia. Se essas fices patticas fizessem sentido, nunca teria havido tantos inocentes no mundo: as elites e os estrangeiros seriam os culpados. Essa farsa acabou: no h desculpa perante uma nao ferida. 
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR
LO PINHEIRO, LULA E O PETROLO 
Vi a esperana renascer entre as linhas da reportagem "Segredos devastadores" (29 de julho). Se o empreiteiro Lo Pinheiro falar, o Brasil no mais se calar. 
SIDNEI JNIOR RAMOS 
Trs Lagoas, MS 

Aguardarei ansiosamente pelo depoimento do empreiteiro Lo Pinheiro que confirme fatos e nomes dos envolvidos no petrolo e ajude a pr na cadeia principalmente o mentor do esquema. 
DIEGO CARVALHO PIMENTA 
Passos, MG 

At que enfim pude ver a to sonhada capa de VEJA estampando o "vendedor de sonhos" que culminou na decepo de milhes de brasileiros. 
WAGNER RODRIGUES DE OLIVEIRA 
Arax, MG 

O olhar distante e vago do ex-presidente Lula na genial capa de VEJA me deteve por longos minutos. Vi as dores da alma refletidas nos olhos do outrora homem mais poderoso de nossa vilipendiada Repblica, um olhar de quem no tem a mais remota dvida de que no h nada mais a fazer. Na foto residem a melancolia e a resignao de quem espera o desfecho fatal de um enredo que no deu certo. 
LEVI BRONZEADO DOS SANTOS 
Guarabira, PB 

Desnorteado, Lula vaga por gabinetes do Congresso, prope manjadas receitas para salvar a prpria pele. 
JOS MARIA LEAL PAES 
Belm, PA  

Vi o retrato de Lula na capa e recordei aquele metalrgico que despertou um rebanho de trabalhadores para o sagrado direito de receber o justo pelo suor derramado nas fbricas do ABC paulista... Mas o retraio de agora  do cone de uma fera raivosa, pronta a devorar nossas entranhas e forrar de ouro e seda o ninho de seus protegidos. 
WALTER SOARES 
Santa Maria, RS 

Acredito que "a vez dele"  um dos momentos mais aguardados por aqueles que ainda acreditam na Justia. 
MARIA GORETI KLEIS TOMIO 
Itaja, SC 

 evidente que h parentesco entre os dois maiores escndalos de corrupo (o mensalo e o petrolo), "como nunca antes visto na histria deste pas". Com a convocao do operador do mensalo para uma oitiva na CPI da Petrobras, o "esquecido" Marcos Valrio, hoje "mofando numa penitenciria" em Minas Gerais, abriu-se uma chance para que ele apresente, entre outros importantes detalhes, o pagador daquele esquema, mas o "prato frio" a ser saboreado pelo "ex-carequinha" ter um gosto especial, dado o seu descompromisso total com os antigos comparsas, e mais ainda: a imperdvel oportunidade que est sendo oferecida a ele para, enfim, acertar algumas contas "pendentes". Aguardemos. 
KILDARE JOHNSON MEDEIROS 
Olinda (PE), via tablet 

INSTITUIES 
A reportagem "Eu, caador de mim" (29 de julho), do jornalista Andr Petry, pode passar despercebida por um leitor menos atento, mas  justamente sua sutileza que torna o texto brilhante. Muitos governantes no devem saber, mas l esto para proteger nossas instituies e garantir seu bom funcionamento. Se elas forem desmoralizadas, estaro abertas as portas para uma onda de instabilidade que pode culminar em um novo golpe. Perdem no apenas os polticos, mas todo o povo brasileiro. 
RODRIGO R. PAIM 
Rio de Janeiro, RJ  

ODEBRECHT E LULA 
Sobre as afirmaes da reportagem "O escritrio central" (29 de julho), a Construtora Norberto Odebrecht esclarece que tem sido questionada pela imprensa, com frequncia, nos ltimos meses, sobre a contratao de palestras do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, assim como sobre doaes ao Instituto Lula. Muitos dos questionamentos so sobre questes contratuais, por isso  natural que sejam alinhadas entre as partes. Vale notar, porm, que, embora seja natural este tipo de conversa prvia sobre demandas de imprensa que envolvem duas partes, as respostas enviadas por Odebrecht e Instituto Lula sempre foram absolutamente independentes  cada qual tratando de suas responsabilidades. 
SRGIO BOURROUL 
Diretor de comunicao da Odebrecht 
So Paulo, SP 

BRUNO GARSCHAGEN 
Na brilhante entrevista " uma crise atrs da outra" (29 de julho), o cientista poltico Bruno Garschagen apresenta com clareza as causas da derrocada em que se encontra o Brasil e d a receita para salv-lo; receita essa que, por certo, no ser utilizada pelo PT, pois o que est ocorrendo faz parte dos planos do partido para transformar o Brasil numa Venezuela. 
HERMNIA MARIA SOARES LESSA 
Cachoeira de Itapemirim (ES), via smartphone 

Aps anos "pregando no deserto", a mensagem de Bruno Garschagen e outros bravos comea a ecoar. Menos Estado e mais liberdade individual  um desejo que ganha corpo entre os brasileiros extenuados com a humilhante carga tributria. 
DARKS CESAR CASOTTI 
Serra, ES 

O cientista poltico Bruno Garschagen pe o dedo na ferida do intervencionismo estatal na economia (e, como bem colocado pelo entrevistado, at na vida das pessoas). Muitos dos casos citados por ele dizem respeito ao setor de restaurantes, entre os quais esto uma lei capixaba que probe os restaurantes de expor o sal, como se as pessoas fossem incapazes de decidir sobre o consumo do produto, e a regulamentao da profisso de garom, que, se sancionada como est, como bem apontado por Garschagen, far com que a categoria praticamente financie o sindicato do setor. Na esteira dessas leis, h outra agora, sancionada no ltimo dia 22, no Estado do Rio de Janeiro, que obriga bares, restaurantes e similares a oferecer gua filtrada gratuita aos seus clientes. gua, importante afirmar, que o setor paga para adquirir. Reduzir o papel do Estado no Brasil  mais que urgente. Ou pagaremos o preo de retroceder aos mais obscuros perodos de nossa histria. 
CRISTIANO MELLES 
Presidente da Associao Nacional de Restaurantes (ANR) 
So Paulo, SP 

Bruno Garschagen, cientista poltico e autor do recente livro Pare de Acreditar no Governo, aponta a interveno do Estado na vida pblica como fonte de atraso civilizacional e incentivo  corrupo. Calcula que, depois da promulgao da atual Constituio (1988), foram criados quase 5 milhes de leis, emendas e medidas provisrias para regulamentar a vida dos cidados, como se fssemos ineptos. No seu estado, Esprito Santo, deputados e vereadores chegaram a promulgar normas absurdas, como a proibio de colocar saleiros nas mesas de restaurantes (para proteger os clientes do aumento da presso sangunea) ou de que as noivas fossem ao altar sem calcinha (para salvaguardar a moralidade religiosa). Pior do que as leis ridculas so as mordomias e privilgios dos membros dos trs poderes (Legislativo, Judicirio e Executivo) que permitem o assalto aos cofres pblicos, fomentando a corrupo com o consequente endividamento do Estado, que gasta mais do que arrecada.  preciso diminuir o nmero de partidos, ministrios, secretarias, senadores, deputados, vereadores, cargos pblicos sem exigncia de comprovao de competncia. No existe justia social sem meritocracia. Se o Estado  um pssimo administrador,  indispensvel a reduo de seu tamanho e de seu poder, para o Brasil sair da estagnao e alcanar nvel de Primeiro Mundo. 
SALVATORE D'ONOFRIO 
So Jos do Rio Preto, SP  

Fiquei radiante com a resposta  penltima pergunta da entrevista com o cientista poltico Bruno Garschagen, pois ela traduz o que sempre pensei e expressei: " bobagem dizer que o brasileiro no sabe votar. Na realidade, o brasileiro no tem em quem votar". 
JLIO ALVES 
So Vicente, SP 

CLUDIO DE MOURA CASTRO 
Cludio de Moura Castro ("A democracia e suas derrapagens", 29 de julho) ilustra com clareza algo que considero uma realidade em nossa sociedade: num pas onde a educao  tratada como algo subjetivo, com pouco protagonismo, a democracia se encontra desfigurada, enfraquecida. Um povo educado escolhe melhor seus representantes. 
LEANDRO LEAL TURETA 
Carangola, MG 

MALSON DA NBREGA 
Concordo em gnero, nmero e grau com o economista Malson da Nbrega na defesa da reeleio  esta precisa ser aperfeioada, e no revogada ("Em defesa da reeleio", 29 de julho). O Brasil deveria se inspirar no modelo americano, que at hoje vem dando certo. Sou favorvel  reeleio porque ela permite a continuidade de planos, programas e projetos que esto produzindo resultados, principalmente na educao. Se o governante no apresentar bom desempenho, que seja substitudo por outro, melhor. Reeleio no  panaceia, mas resolve muitos problemas. 
FRANCISCO DE ASSIS SILVA ALENCAR 
Teresina, PI 

ALICE CAYMMI 
Boa a reportagem "A voz rebelde do cl" (29 de julho), do competente crtico Srgio Martins, sobre a cantora Alice Caymmi. Ela pode fazer um bom trabalho, mas h novas cantoras, com trabalhos bem mais ousados e arrojados, que no contam com o legado familiar dos "maravilhosos" Caymmi. 
CSAR FIALHO 
Rio de Janeiro, RJ 

ATAQUES DE TUBARO 
Sou surfista de praias internacionais e agradeo pela interessante e encorajadora reportagem " para ter medo?" (29 de julho), dos jornalistas Pieter Zalis e Renata Lucchesi. As informaes coincidem com o cotidiano de surfistas. Pratiquei meu esporte em Fernando de Noronha acompanhado de tubares. Os dados do infogrfico "O big data do tubaro" contribuem para um melhor entendimento do assunto. 
OTTO NISSEL 
Curitiba, PR 

Como esportista, dirigente, professor de alguns milhares de alunos, fotgrafo, industrial, escafandrista profissional e jornalista, no tenho reparo ao texto da interessante reportagem " para ter medo?". Apenas discordo, considerada minha vivncia no assunto, dos nmeros referentes a ataques e mortes ocorridos no Brasil. A estatstica trazida carece de credibilidade para quem est no ramo. As ocorrncias, de vrias das quais posso pessoalmente testemunhar a veracidade, foram muito mais numerosas. 
JOS J. DE MAGALHES NETTO 
Ex-presidente da Federao Paulista de Caa Submarina 
Ubatuba, SP 

PLANETA KEPLER-452b 
A reportagem "Um primo distante",(29 de julho) nos faz lembrar o tamanho da nossa insignificncia diante do universo. A descoberta do planeta Kepler-452b, muito semelhante  Terra, recoloca em pauta uma pergunta que h muito tempo nos perturba: "Estamos sozinhos?". 
ANA CAROLINA DURLI 
Curitiba, PR 

Correes:  atualmente, h trs lutadores brasileiros campees no UFC  Jos Aldo, Rafael dos Anjos e Fabricio Werdum ("Cad os campees?", Radar, 29 de julho). 
 A foto do executivo Jlio Camargo publicada na pgina 52 da edio 2435 (22 de julho) e na pgina 64 da edio 2436 (29 de julho)  de autoria de Marlia Lemos.

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR MARCOS ROGRIO LOPES marcos.lopes@abril.com.br

COLUNA
REINALDO AZEVEDO
DATENA
Jos Luiz Datena  um apresentador de talento. Poderia continuar na TV, mas resolveu cometer o erro estpido de se meter na poltica. No que a poltica brasileira, entregue a profissionais, ande grande coisa. Mas  evidente que iniciativas dessa natureza s acrescentam certo carter de chanchada ao que j no vai bem. www.veja.com/reinaldoazevedo 

COLUNA 
FELIPE MOURA BRASIL 
ESCOLA DO CRIME 
Os dois maiores criminosos do Brasil, Fernandinho Beira-Mar e Playboy, frequentaram escola e tiveram oportunidades na vida. Crime se combate com priso, mas a esquerda quer fazer voc acreditar que a sada  o Pronatec. Dilma quer botar bandido menor de idade para ter aula junto com inocentes pobres. www.veja.com/felipemourabrasil 

NOVA TEMPORADA 
FERNANDA FURQUIM 
INTERATIVIDADE 
O site de streaming Amazon programou para 7 de agosto a estreia dos episdios-piloto de Casanova e Sneaky Pete. Os dois sero avaliados pelos usurios dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Alemanha, e o que for aprovado poder virar srie, com a encomenda da primeira temporada. www.veja.com/temporada

VEJA MSICA
O GURIZINHO DA GALOPEIRA
O cantor Michel Tel esteve no estdio de TVEJA para divulgar o livro Bem Sertanejo, homnimo do quadro do programa Fantstico sobre a histria do gnero musical. Na entrevista, ele aproveitou para falar de sua trajetria e mostrou dois vdeos antigos: o primeiro de quando ainda era um "gurizinho" e se esgoelava no clssico Galopeira e o segundo do grupo Tradio, no qual esteve por doze anos. Ele tambm contou que, apesar de gostar de vrios ritmos, mal tem tempo para ouvir outros cantores. "Hoje, com o WhatsApp, recebo de trinta a quarenta msicas de compositores por dia. No d para fazer mais nada." www.veja.com/vejamusica

CIDADES SEM FRONTEIRAS
CARRO BRILHANDO
Pesquisa nacional com 1200 entrevistados feita pelo Instituto Ipsos constatou que entre as principais mudanas nos hbitos dos brasileiros para lidar com a falta de gua ento reduzir o tempo de banho (56,5%) e fechar a torneira durante o ato de escovar os dentes (45%). Na contramo da economia, apenas 13,1% abrem mo de lavar o carro. www.veja.com/cidadessemfronteiras

QUANTO DRAMA!
UM NOVO LELECO
O autor Joo Emanuel Carneiro criou uma famlia para Marcos Caruso que promete ser to ruidosa quanto a da novela Avenida Brasil. Em A Regra do Jogo, que substitui Babilnia no fim de agosto, Caruso voltar a encarnar um malandro pouco dado ao trabalho. O novo personagem vai se chamar Feliciano, um bon-vivant pertencente  estirpe dos velhos playboys que ainda circulam pela Zona Sul do Rio de Janeiro. www.veja.com/quantodrama 

* Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 5.8.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  O ADEUS AO HOMEM-MSSIL
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM OSVALDO BARBOSA DE OLIVEIRA  EMPREGO NOVO A UM CLIQUE
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  O ADEUS AO HOMEM-MSSIL
Abdul Kalam, que liderou a bomba atmica indiana, inspira os pequenos.

Assim que a ndia fez seu primeiro teste nuclear, em 1974, uma mensagem em cdigo foi enviada aos governantes na capital, Nova Dlhi: "Buda est sorrindo". Duas dcadas depois, em 1998, o pas testou cinco bombas atmicas. Esse movimento empurrou o vizinho Paquisto, de maioria muulmana, a tambm trilhar o caminho atmico.  Ainda em 1998, os paquistaneses testaram cinco artefatos  o mesmo nmero de seus rivais. "Al  grande", disse o tcnico que apertou o boto. Na ndia, o orgulho por ter se tornado potncia nuclear foi personificado no engenheiro Abdul Kalam, que morreu de ataque cardaco na segunda 27, aos 83 anos. Nacionalista e muulmano, ele desenvolveu msseis de maior alcance e chefiou o projeto nuclear na dcada de 90. Alegava razes de segurana. "Por 2500 anos, a ndia no invadiu ningum, mas muitos vieram aqui", justificou. Kalam tornou-se presidente em 2002, com 90% dos votos, em uma eleio indireta. Depois do mandato, dedicou-se a motivar estudantes, dando seminrios e marcando encontros privados com eles. Tio Kalam dizia que os jovens deveriam se esforar para que a ndia se desenvolvesse. O correspondente de Kalam  outro Abdul, o engenheiro metalrgico paquistans Abdul Qadeer Khan. Ele levou secretamente projetos atmicos da Holanda para o Paquisto, desenvolveu a bomba e transformou seu pas no maior contrabandista dessa tecnologia. Kalam e Khan esto no centro da competio nuclear das naes pobres, em que o nacionalismo frequentemente se mescla com religio. Ambos viraram heris. "Sonhem! Sonhem! Sonhem!", dizia Kalam aos alunos. 
DUDA TEIXEIRA


2#2 DATAS
MORRERAM
Bobbi Kristina Brown, filha nica de Whitney Houston, morta em 2012, e Bobby Brown. Nascida em Nova Jersey, cresceu  sombra dos pais famosos, que mantinham um relacionamento conturbado e eram viciados em lcool e drogas  o casamento terminou em 2007. Chegou a aparecer algumas vezes no palco com a me. Em 2005, estrelou o reality show Being Bobby Brown e, em 2012, atuou em The Houstons: On Our Own, que tratava do luto de sua famlia aps a morte de Whitney. Bobbi Kristina era a nica herdeira da cantora, que tinha fortuna estimada em 20 milhes de dlares. Desde 31 de janeiro, quando foi encontrada inconsciente na banheira de sua casa, em Atlanta, ela estava em coma. O episdio lembra a morte de sua me, aos 48 anos, descoberta sem vida, deitada de bruos, na banheira do quarto de um hotel em Los Angeles, aps sofrer uma overdose de drogas, misturadas com lcool e remdios. Quem encontrou Bobbi foi seu companheiro, Nick Gordon, criado por Whitney, que o chamava de filho  um elemento a mais na tragdia pessoal da jovem. Dia 26, aos 22 anos, em Duluth, no Estado da Gergia. 

Antonio Akira, dublador que emprestou a voz  conhecidssima entre os jovens  ao personagem Ryuho de Drago, do desenho animado Os Cavaleiros do Zodaco  Srie mega. Ele tambm dublou a tartaruga ninja Leonardo em Teenage Mutant Ninja, levado ao cinema em 2014. Formado em publicidade, chegou a trabalhar em algumas agncias antes de se dedicar  dublagem. No comeo de julho, Akira foi internado com fortes dores de cabea e diagnosticado com meningite fngica. Dia 26, aos 27 anos, de complicaes da doena, em So Paulo. 

Hlio Teixeira, jornalista paranaense que, entre as dcadas de 70 e 80, dirigiu as sucursais de VEJA em Curitiba e no Rio de Janeiro e tambm trabalhou na sede da revista, em So Paulo. Nascido em Palmeira, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Paran. Foi editor do Jornal do Brasil em Braslia e assessor de polticos como Mrio Covas, Jos Richa e Euclides Scalco. Desse ltimo recebeu o convite para trabalhar na Superintendncia de Comunicao Social da Itaipu Binacional. Teixeira ficou no cargo entre os anos de 1995 e 2006. H seis, estava na assessoria de imprensa da Federao da Agricultura do Estado do Paran. Dia 26, aos 65 anos, em decorrncia de problemas pulmonares  o jornalista era um daqueles fumantes incorrigveis , em Curitiba. 

 QUI|30|7|2015 
CONFIRMADA 
pelo grupo radical islmico Talib a morte de seu fundador, mula Mohamed Omar. A notcia havia sido divulgada na vspera pelo governo afego. Ele teria morrido num hospital do Paquisto, em abril de 2013. De acordo com o Talib, Omar nasceu em 1960, em um vilarejo no sul do Afeganisto. Deixou o pas aps a invaso sovitica. Refugiado no Paquisto, l montou sua Organizao. Na luta contra os russos, perdeu uma vista. Assumiu o comando do Afeganisto depois de uma violenta guerra civil. No posto, acolheu militantes da Al Qaeda, liderada por Osama bin Laden, que seria seu genro. Essa aliana levou  interveno dos EUA aps o 11 de Setembro. Desde ento Omar se mantinha recluso. Segundo fontes ligadas ao Talib, Akhtar Mansour vai suced-lo. 


2#3 CONVERSA COM OSVALDO BARBOSA DE OLIVEIRA  EMPREGO NOVO A UM CLIQUE
O presidente para a Amrica Latina do LinkedIn, a maior rede de contatos profissionais, diz que os brasileiros se descrevem, em seu perfil, como "responsveis". O pas  o terceiro com mais usurios no site.

Quais so as caractersticas que s os brasileiros usam para se descrever profissionalmente no LinkedIn? 
Explicamos nossas responsabilidades em cada trabalho. No  toa, a palavra mais usada pelos brasileiros para se descrever, em sua pgina,  "responsvel". Os americanos focam os resultados obtidos e a diferena que fizeram nos lugares por onde passaram. Atrs deles e dos indianos, somos os maiores usurios da rede. 

Para algumas profisses, o LinkedIn no funciona bem. Por qu? 
Dentistas e mdicos, por exemplo, so autnomos e costumam abrir o prprio consultrio. Dificilmente algum emprega um desses profissionais s por causa de seu perfil no site; mas, quando so recomendados a um paciente, ele vai ao LinkedIn para ver a formao e a experincia deles. 

Para quais profissionais a rede  boa? 
Para os de TI, educao e marketing. H mais pessoas dessas reas na rede, so mais ativas nela e entendem melhor as ferramentas. Mas  importante lembrar que o LinkedIn no  uma rede apenas para achar emprego. Essa  a quinta razo pela qual algum entra no site. H notcias sobre trabalho, gente escrevendo sobre tendncias profissionais e avisos de cursos. 

Currculo longo, foto inadequada e adjetivos para se descrever. O que mais detona a chance de arrumar um emprego? 
Mentir sobre experincia ou habilidades e ser genrico na descrio do que voc quer ou faz. 

Barack Obama e Bill Gates so o que vocs chamam de influencers, personalidades que escrevem no LinkedIn sobre seu universo profissional. Eles no fizeram muito sucesso no Brasil e, agora, gente daqui escrever sobre o pas. Vingar? 
Obama falando de um problema americano tem apelo s para algumas pessoas. Alm disso, no  todo mundo que sabe ingls a ponto de consumir esse contedo. Em 2010, o LinkedIn foi traduzido, e hoje tem 22 milhes de usurios no Brasil. O pas  o nico de lngua no inglesa a ter textos de especialistas no prprio idioma e sobre a cultura local.


2#4 NMEROS
61 a 122 metros do solo  a faixa da atmosfera que a Amazon quer reservar aos drones que estaro cruzando o cu aos milhares nos prximos anos para fazer entregas, como planeja a empresa. 
65 metros de altitude alcanam os sabis, pardais e beija-flores, que dividiro o espao com esses aparelhos. 
2800 metros  a altura em que voam pssaros maiores, como os urubus, que no correm o risco de encontrar drones pelo caminho, mas que volta e meia colidem com avies. Estes tm de trafegar a uma altitude mnima de 300 metros acima do prdio mais alto de uma cidade, segundo as normas brasileiras. 


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Califrnia -  O estado, que h quatro anos enfrenta uma seca implacvel, bateu a meta estipulada pelo governo e reduziu em 27% o consumo de gua em junho. 
Isis -  O grupo que disputa com a Al Qaeda a supremacia do terrorismo islmico se fortalece com a confirmao da morte do mula Omar, o lder do Talib afego que a Al Qaeda reconheceu como "emir dos fiis". 
Game of Thrones -  A HBO anunciou que a srie, com 24 indicaes ao Emmy deste ano, j tem garantidas ao menos mais trs temporadas.

DESCE
Almaty -  Por quatro votos (44 a 40), a cidade do Cazaquisto perdeu para a chinesa Pequim o ttulo de sede dos Jogos Olmpicos de Inverno em 2022. 
Eurodisney -  A Disneylndia de Paris ser investigada pela Comisso Europeia por cobrar mais de alemes e britnicos do que de franceses. 
Cheque especial -  Os juros atingiram novo recorde: 241% ao ano. Isso significa que uma dvida de 1000 reais, se no for paga, virara um papagaio de 3413 reais em doze meses.


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 LAVA-JATO
PMDB, TREMEI
s vsperas de completar nove meses na priso, Fernando Baiano no est bem psicologicamente. Nlio Machado, advogado do suposto operador do PMDB, diz que deixaria o caso, mas entenderia se a presso psicolgica fizesse Baiano optar pela delao premiada. 

PLANO DE VOO 1 
Se Baiano falar, a casa de muito peemedebista grado vai cair. Mas seria uma surpresa. De acordo com interlocutores prximos a ele, Baiano tinha outros planos. Imaginava ser condenado a quinze anos de priso (como os executivos da Camargo Corra). Desse total, cumpriria um sexto da pena e conseguiria a liberdade. Como j cumpriu quase um ano, ficaria preso somente mais uns dois anos. 

PLANO DE VOO 2 
A partir da, Baiano estaria livre, leve, solto e ainda jovem para usufruir os milhes e milhes de dlares que acumulou em roubalheiras na Petrobras e em outras estatais. 

70 MILHES DE DLARES 
O lobista Hamylton Padilha, que operava pesado na Petrobras e fez um acordo de delao premiada na Lava-Jato na semana passada, prometeu devolver 70 milhes de dlares aos cofres pblicos. 

A NOVA FRONTEIRA 
Que Sua e Ilhas Cayman que nada. Em breve, muitas contas secretas em parasos fiscais asiticos aparecero nessa encrenca da Lava-Jato.  

CU NUBLADO 
A hora  de voo de carreira para algumas empreiteiras. A UTC ps  venda o seu Cessna Citation Sovereign; a OAS tenta passar adiante sua frota de quatro jatos e abriu mo de receber um Citation X, avaliado em 22 milhes de dlares, que seria entregue agora; e a Camargo Corra est se desfazendo do seu Falcon 900EX. Odebrecht e Andrade Gutierrez ainda no se mexeram nesse assunto  com certeza, ainda no precisaram.  

E VAI PIORAR 
Sob o comando de Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o Congresso que volta a funcionar na segunda-feira 3 foi o que menos apoio deu a Dilma Rousseff desde 2011. De acordo com uma pesquisa indita da consultoria Arko Advice, no primeiro semestre o governo foi derrotado em cinco projetos (20%) do seu interesse votados no Senado - no mesmo perodo dos anos anteriores, o governo no perdeu nada. Na Cmara, a dor de cabea tambm aumentou. Dilma foi derrotada em 23% das matrias que a interessavam - a maior taxa desde que assumiu a Presidncia. Alis, o ritmo frentico imposto por Eduardo Cunha na Cmara  prova eloquente do trabalho que o articulador poltico e vice Michel Temer vem tendo: somados, os projetos de interesse do Executivo votados na Cmara no primeiro semestre dos trs anos iniciais de Dilma so exatamente iguais aos que Cunha botou para votar neste ano: 123.  

 ITAMARATY 
MORAR BEM 
A chefe do consulado do Brasil em Nova York, Ana Lucy Petersen, mora em um apartamento de aluguel mensal de 19.000 dlares, na Trump World Tower. Desde a gesto de Luiz Alberto Figueiredo, o Itamaraty criou uma regra em que os diplomatas devem buscar novos imveis cujos  custos no ultrapassem 80% do valor pago pelo imvel anterior. Ou seja: j havia gordura para cortar quando a embaixadora escolheu morar ali.  

 EDUCAO 
O CALOTE 
O drama do Fies s faz aumentar. O governo deixou de repassar s instituies de ensino 7,5 bilhes de reais do programa.

 GOVERNO
QUESTO DE ORDEM
O TCU deve votar os processos relativos s pedaladas antes de votar as contas de Dilma Rousseff. 

EM SIGILO 
O TSE decretou sigilo na ao movida pelo PSDB contra a chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer. A ao  o modelo mais incentivado entre os tucanos para a sada de Dilma.  a nica que pode levar  convocao de novas eleies  desde que toda a chapa seja cassada. 

 ECONOMIA 
FREADA GIGANTE 1 
O cenrio traado pelos grandes bancos para o ltimo trimestre  um filme de terror: queda de 5% da economia em comparao com o mesmo perodo de 2014, que j no havia sido grande coisa. 

FREADA GIGANTE 2 
Exceto pela concluso da venda do HSBC para o Bradesco, praticamente todas as transaes de fuso e aquisio esto paradas. 

CHANCE NA CRISE 
Com dinheiro em caixa, a Gafisa est aproveitando a violenta crise do setor imobilirio para comprar um grande volume de imveis das concorrentes com substanciosos descontos. 

A PODEROSA 
 brasileira a mulher que administra o maior hedge fund do mundo. Desconhecida por aqui, e baseada na Europa, Leda Braga, 48 anos,  dona da Systematica Investments e tem sob sua responsabilidade 8,2 bilhes de dlares. 

 FUTEBOL 
SEM MEDO DO PETROLO 
A Petrobras pode estar em baixa em algumas reas, mas no futebol europeu o seu vis  de alta. Dirigentes do Arsenal, da Inglaterra, e do Internazionale de Milo, da Itlia, entraram em contato com a estatal para tentar patrocnio  em suas camisas ou outras aes. A resposta da Petrobras foi "no". 

PERTO DO GOL 1 
Os advogados de defesa da turma brasileira encrencada no escndalo Fifa/CBF esperam grandes emoes para agosto. Alis, no Brasil os processos do caso correm sob segredo de Justia. A defesa de alguns envolvidos tentou at no STF acabar com o sigilo. Em vo. 

PERTO DO GOL 2 
A propsito, a Polcia Federal investiga a participao do doleiro carioca Dario Messer nos negcios de alguns dos principais personagens dessa confuso. Messer, alis, tambm est metido nas roubalheiras do petrolo. 

 LIVRO 
364 SEMANAS 
Paulo Coelho est batendo mais um recorde nesta semana. O Alquimista acaba de completar sete anos na lista dos dez livros mais vendidos de fico do The New York Times  na mais recente, a obra ocupa a terceira posio, alis.  o livro de fico que mais tempo ficou na relao dos dez mais do NYT. O Alquimista j vendeu 15,5 milhes de exemplares nos EUA.

Colaborou Guilherme Amado


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Estou em meu segundo mandato (...). Realmente acho que sou um presidente muito bom. Acho que, se eu concorresse, poderia ganhar. Mas no posso! - BARACK OBAMA, presidente dos Estados Unidos, ao criticar a atitude de lderes africanos que mudam a legislao de seus respectivos pases para se perpetuar no poder, durante discurso em Adis-Abeba, Etipia. 

Acho que ele (o empresrio Donald Trump) est fazendo um grande servio para a comdia, bem como para a poltica. - CAMILLE PAGLIA, ensasta americana, na revista Salon. Trump  pr-candidato republicano  sucesso do democrata Obama. 

Durante este meio sculo, ou mais, a Fifa teve apenas dois presidentes. Essa estabilidade extrema tem algo de paradoxal em um mundo que experimentou agitaes radicais. - MICHEL PLATINI, ex-jogador francs, presidente da Uefa, no comunicado em que anuncia sua deciso de disputar o comando da entidade mxima do futebol mundial. 

Ou mudamos a fiao ou vai dar curto-circuito. - JOAQUIM LEVY, ministro da Fazenda, ao enfatizar a necessidade de ajustes na economia, em entrevista ao jornal O Estado cie S. Paulo. Ele disse tambm que  preciso um "alinhamento de prioridades entre o Executivo e o Legislativo" para aumentar a meta fiscal de 2016. 

No vamos colocar uma meta, ns vamos deixar uma meta aberta. Quando a gente atingir a meta, ns dobramos a meta. - DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica, ao anunciar, no Palcio do Planalto, 15.000 vagas para o Pronatec Jovem Aprendiz, parceria entre pequenas e microempreas e o governo federal.

Como tnhamos longas falas sobre poltica, literatura e filosofia, ele (o cineasta Jean-Luc Godard) precisava de um recurso que deixasse o espectador acordado. -HLOSE GODET, atriz francesa, explicando, em O Globo, de maneira bem-humorada, o motivo de sua nudez e a do ator Kamel Abdeli em boa parte das cenas do novo filme do diretor franco-suo, Adeus  Linguagem. 

No sculo XXI, as pessoas esto interessadas na vida delas. Essa nova classe C no  aspiracional, tem um lado mais pragmtico." - JOO EMANUEL CARNEIRO, autor de A Regra do Jogo, nova novela das 9 da Rede Globo, que estreia no prximo dia 31, em O Estado de S. Paulo. 

Impeachment no pode ser tratado como recurso eleitoral. - EDUARDO CUNHA, presidente da Cmara (PMDB-RJ), durante encontro com empresrios em So Paulo. 

Precisamos mudar a legislao para garantir que esses criminosos permaneam por mais tempo na cadeia e devolvam o dinheiro que desviaram da sade, da segurana e da educao. - DELTAN DALLAGNOL, procurador da Repblica, coordenador da fora-tarefa da Operao Lava-Jato, em vdeo da campanha para coletar 1,5 milho de assinaturas em apoio ao pacote de projetos de lei de combate  corrupo. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto do ambiente poltico, sob a moldura da Operao Lava-Jato 
Todo homem que faz poltica aspira ao poder ou porque o considera como um meio a servio de outros fins, ideais ou egostas, ou porque o deseja 'por ele mesmo', com o intuito de usufruir do sentimento de prestgio que ele confere. - MAX WEBER, monumento da sociologia alem (1864-1920).
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3# ECONOMIA  ESPECIAL 5.8.15

     3#1 TEMPESTADE PERFEITA
     3#2 A CRISE EM 3 CENRIOS

3#1 TEMPESTADE PERFEITA
Os indicadores da economia brasileira apontam para uma recesso prolongada. O tombo ser ainda mais profundo caso o governo no recupere rapidamente a confiana dos investidores nem consiga evitar o rebaixamento da nota de crdito do pas.
GIULIANO GUANDALINI E BIANCA ALVARENGA

     AS ANALISES ECONMICAS MAIS realistas e desapaixonadas indicavam, fazia algum tempo, que a crise na economia brasileira era um acidente prestes a acontecer. Por seis anos seguidos, o governo pisou fundo demais no acelerador dos gastos pblicos e aliviou o p no freio do controle da inflao. Em pouco tempo, arruinou a confiana construda em duas dcadas de ajustes e reformas  sem falar nas manobras na contabilidade federal. Ao assumir o Ministrio da Fazenda, Joaquim Levy apresentou um plano para evitar o desastre, como o personagem do filme Juventude Transviada que escapa da morte ao saltar do carro momentos antes da queda no desfiladeiro. 
     Por alguns meses, parecia que Levy seria bem-sucedido. O ministro procurou extinguir os trambiques do antecessor e props uma srie de medidas para reforar o caixa do governo e impedir um rombo ainda maior nas finanas pblicas. A iniciativa seria um primeiro passo para arrumar a casa e retomar os projetos de longo prazo para incentivar o crescimento econmico. O clima poltico hostil, entretanto, atrapalhou os planos do ministro. Quanto mais frgil a situao da presidente Dilma Rousseff e  maior o envolvimento de polticos da base aliada nas revelaes da Lava-Jato, menor a disposio do Congresso para aprovar ajustes impopulares. O tempo sobre a economia brasileira j estava fechado. Agora, o pas est sob a ameaa de lidar com uma verdadeira tempestade perfeita. 
     O Brasil no  to vulnervel como no passado, mas entrou avariado na trovoada. O povo brasileiro j percebeu, em seu dia a dia, o aumento no custo de vida, a dificuldade para quitar dvidas, o desemprego de pessoas conhecidas. O pior, entretanto, est por vir. Principalmente se as medidas de austeridade nas contas do governo no forem aprovadas. Na semana passada, a agncia americana de classificao de risco Standard & Poor's reduziu para negativa a avaliao do pas. Existe agora uma probabilidade elevada de rebaixamento da nota do Brasil, possivelmente no prximo ano. Se assim for, o pas perder, na avaliao da S&P, o status de grau de investimento. E o que isso significa? A economia deixar de ter acesso ao crdito farto e barato dos mercados internacionais. Os maiores fundos de penso estrangeiros restringem a aplicao em pases sem o grau de investimento. Em vez de ficar mais prximo de pases como os Estados Unidos, a Alemanha ou o Chile, o Brasil seria rebaixado para o grupo de caloteiros contumazes, que inclui a Grcia, a Argentina e a Venezuela. 
     No  apenas o governo que  afetado. As empresas brasileiras tambm sero vistas como investimentos especulativos. Ao pr a nota do pas em perspectiva negativa, a agncia fez o mesmo para 41 empresas locais. Entre elas figuram companhias que, a despeito do cenrio econmico adverso, esto entregando bons resultados e no tm dependncia direta do Estado, como Ambev e NET. Isso acontece porque a nota de crdito do pas  o teto de classificao das empresas. Raramente uma empresa pode ter nota melhor do que o pas no qual ela opera, porque sempre existe o risco de ser afetada por alguma restrio na transferncia de pagamentos. 
     No cenrio de rebaixamento, as empresas e o governo, em vez de contarem com um mercado de 15 trilhes de dlares de crdito em condies favorveis de prazo e juros, tero de disputar uma oferta mais modesta, de 5 trilhes de dlares, de capitais especulativos. "Com a perda do grau de investimento, haver dois tipos de empresa: o primeiro, de companhias vistas com maior solidez que o prprio Brasil, conseguiria fazer ajustes para diminuir o custo de captao. J o segundo grupo, de empresas que no tm tantas garantias a oferecer, tende a sofrer mais", afirma Cid Oliveira, gestor de fundos globais da corretora XP Investimentos. Dada a deteriorao da economia, as empresas brasileiras com selo de bom pagador que buscam recursos no exterior j esto desembolsando juros equivalentes aos de empresas de maior risco de investimento. O mesmo acontece com o Brasil, cujos ttulos externos pagam atualmente juros de pases considerados mais arriscados, como Rssia, Turquia e Hungria. "Caso perca o grau de investimento, o Brasil ter de fazer vrias reformas antes de ser visto como confivel novamente. O processo demandar um esforo para melhorar os fundamentos econmicos, com foco na poltica fiscal e nas correes que tendem a aumentar a produtividade, reduzir a burocracia e tornar o pas mais eficiente", diz Oliveira. 
     Em um cenrio projetado por um modelo matemtico desenvolvido pela consultoria Tendncias, a cotao do dlar poderia passar dos 4 reais no prximo ano, a taxa Selic chegaria a 17% e o PIB teria mais um ano de retrao (leia a reportagem na pg. 58). Melhor seria nem pensar nessa possibilidade, mas a imprudncia dos anos Dilma a tornou factvel demais. Tanto  assim que o Brasil j sofre uma queda no ingresso de capitais. As empresas passaram a ter restries no mercado externo e pagam juros mais elevados para rolar as suas dvidas externas. O preo do dlar, um dos termmetros mais sensveis para aferir a confiana dos investidores, subiu a valores no vistos em doze anos. A cotao aumentou mais de 50% nos ltimos doze meses, e o real foi uma das moedas que mais perderam valor em relao  americana nesse perodo.  um reflexo do pessimismo generalizado e da perspectiva de crescimento fraco. 
     A reviso da Standard & Poor's foi um recado explcito de que as reformas de Levy no cumpriram os objetivos originalmente previstos. Em maro, h apenas quatro meses portanto, a mesma agncia havia emitido um voto de confiana nos ajustes. Agora, entretanto, avalia que as circunstncias polticas dificultam a execuo do plano. Alm do mais, o crescimento econmico foi castigado pelas investigaes de corrupo, que tiveram impacto direto nos investimentos. Como resultado, as perspectivas para o Brasil se deterioram. O pas est por um fio. As duas outras grandes agncias de classificao de crdito, a Fitch e a Moody's, ainda conferem notas mais elevadas ao pas, mas esto em processo de reviso. 
     A capacidade de Levy de ser o fiador da economia foi posta em xeque, como indica a piora recente do humor dos investidores nacionais e estrangeiros em relao s perspectivas para a economia. O aprofundamento da recesso e o aumento do desemprego atingiram tambm o estado de nimo dos consumidores e empresrios brasileiros. Ficou evidente que a retomada ser lenta e gradual. O Brasil corre o risco de amargar dois anos consecutivos de retrao do produto interno bruto (PIB, o total de mercadorias e servios produzidos), algo nunca visto antes na histria nacional desde a dcada de 30. Sem novos solavancos nem surpresas negativas, a atividade econmica voltar a crescer apenas em meados de 2016, na melhor das hipteses. 
     O mau tempo, desta vez, quase nada tem a ver com a conjuntura internacional. Com raras excees, as principais economias mundiais passam por um momento favorvel, superando as dificuldades do perodo da crise internacional. O PIB dos Estados Unidos dever avanar 2,5% e o da Inglaterra, 2,4%, de acordo com as projees mais recentes do Fundo Monetrio Internacional. A mdia mundial ficar em torno de 3,3%, semelhante ao ritmo de 2014. A China enfrenta uma desacelerao e crescer "apenas" 6,8%. Entre as principais economias internacionais, a brasileira  a nica em recesso. O tombo no PIB em 2015 ser ao redor de 2%. 
     Em uma inverso preocupante, os indicadores que deveriam subir esto em queda, enquanto aqueles que deveriam cair sobem. Mesmo com a recesso, o Banco Central, comandado por Alexandre Tombini, aumentou novamente a taxa bsica de juros, a Selic, na semana passada, para 14,25% ao ano, o maior nvel desde 2006. A alta foi necessria porque a inflao, que deveria ser cadente em uma economia retrada, permanece elevadssima. Por qu? Culpa dos descuidos dos primeiros anos de Dilma. Os reajustes das tarifas de energia e dos combustveis foram represados. Agora eles esto sendo ajustados, contagiando os preos de outras mercadorias. A moeda americana mais cara no di no bolso apenas dos turistas em viagem ao exterior. Diversos produtos, e no apenas os importados, possuem preo definido em mercados internacionais. A falta de credibilidade da atual gesto do BC tambm pesa contra. " como a histria do alcolatra que passou os ltimos quatro anos de pileque e agora diz que parou de beber", afirma um ex-diretor do banco. "Os juros precisam ser mais altos do que o necessrio por causa da desconfiana de que a meta da inflao no ser cumprida." Essa desconfiana custa caro. Cada aumento de 1 ponto na taxa Selic representa um gasto adicional com juros de 15 bilhes de reais ao ano. 
     A economia ficou presa a um ciclo vicioso difcil de ser rompido. "A baixa confiana do consumidor se reflete na diminuio da atividade da indstria e do comrcio. Ao mesmo tempo, as baixas expectativas desses setores implicam menor criao de vagas, o que deprime o consumo", afirma Viviane Seda, coordenadora de sondagem do consumidor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundao Getulio Vargas. " um efeito que se retroalimenta." Segundo a pesquisadora, o desemprego foi decisivo para a piora da confiana do consumidor nos ltimos meses. Mais de 600.000 postos de trabalho foram fechados desde junho do ano passado. O desalento no chegou a ndices to baixos nem mesmo em 2009, ano em que a economia se retraiu 0,2%. Isso porque, na poca, o estmulo ao consumo foi a ferramenta usada pelo governo para dar flego  retomada econmica. "No atual contexto, no h mais espao para o crescimento do consumo. O endividamento, a inflao e o desemprego esto altos e afetam diretamente a renda familiar", diz Seda. 
     O Brasil precisa contar agora um pouco com a sorte para no sofrer ainda mais. Alm da situao interna complicada, existem riscos externos que podem se materializar. O maior deles seria uma crise financeira na China. Outra ameaa, ainda felizmente fora do radar, seria um aumento mais acentuado dos juros nos Estados Unidos. Janet Yellen, a presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, vem postergando ao mximo o aumento da taxa, que permanece h anos prxima de zero. Se os juros subirem na economia americana, o investimento em pases emergentes, como o Brasil, ficaria menos atrativo. A revoada dos dlares seria inevitvel. Pairam ainda no ar eventuais complicaes na Grcia e no restante da Europa. 
     A crise brasileira atual, contudo,  integralmente feita em casa. Super-la exigir o aperto do cinto da austeridade fiscal e a aprovao de ajustes profundos. O exemplo da ndia mostra que essa receita funciona. O pas asitico esteve prestes a perder o grau de investimento. Mas as reformas implementadas pelo atual primeiro-ministro, Narendra Modi, evitaram o rebaixamento da nota pelas agncias.  a esperana de ver a tempestade dissipada.

VARIAO DO PIB
2010: 7,6%
2015: -1,8% (estimativa)

BALANA COMERCIAL (saldo, em bilhes de dlares)
2010: 20,1 
2015: 6,4 (estimativa)

EMPREGO (saldo em vagas formais)
2010: 2,17 milhes
2015: -602.000

CONFIANA DO CONSUMIDOR (Indicador que avalia as perspectivas do setor em relao  economia)
2010: 120 pontos
2015: 82 pontos

CONFIANA DA INDSTRIA (Indicador que avalia as perspectivas do setor em relao  economia)
2010: 114 pontos
2015: 69 pontos

CONFIANA DO COMRCIO (Indicador que avalia as perspectivas do setor em relao  economia)
2010: 133 pontos
2015: 90 pontos

Fontes: Boletim Focus, Banco Central, Ministrio do Trabalho e Emprego e Ibre-FGV


3#2 A CRISE EM 3 CENRIOS
No existe previso de tempo bom para o Brasil nos prximos meses, mas um acordo poltico e a aprovao dos ajustes no Congresso podem evitar o pior.
MARCELO SAKATE

     A economia brasileira atingiu o fundo do poo? Quando comea a recuperao? Se o pas perder o grau de investimento, hiptese que ganhou fora, quais os impactos negativos sobre o cmbio e o ritmo de crescimento? Para responderem a perguntas como essas, que muitos brasileiros se fazem em um momento de incertezas como o atual, bancos e consultorias desenvolvem modelos estatsticos que procuram antever o comportamento dos indicadores e os reflexos sobre a atividade e o consumo. Um simulador criado pelos economistas Juan Jensen e Thiago Curado, da consultoria Tendncias, d a dimenso dos efeitos decorrentes do eventual rebaixamento da nota de crdito do pas no primeiro semestre do ano que vem. Os nmeros podem ser observados no quadro da pgina ao lado. A cotao do dlar chegaria a 4,50 reais no prximo ano, a inflao permaneceria alta, os juros subiriam ainda mais e o pas teria mais um ano de recesso. 
     Para chegarem a esses resultados, os economistas recorreram a uma ferramenta de anlise economtrica recm-concluda. Trata-se de uma adaptao do Samba, sigla em ingls para Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach, ou modelo analtico estocstico com uma abordagem bayesiana, elaborado pelos tcnicos do Banco Central e usado pelos diretores da instituio para analisar os rumos da economia e fixar a taxa bsica de juros, a Selic. Chamado de simulador econmico da Tendncias, o modelo permite calcular como diferentes variveis se comportam a partir de fatos concretos como a reviso das metas fiscais at 2018, que o governo anunciou h duas semanas.  possvel fazer a simulao de diversos choques na economia, tanto positivos, como o aumento do preo das exportaes, quanto negativos, como a diminuio das metas fiscais. Essa mudana, alis, j se refletiu em uma deteriorao dos indicadores. A taxa de cmbio para o dlar dever ficar perto de 3,50 reais no fim do ano, caso no surjam novos fatos relevantes. Anteriormente, prevalecia a previso de uma cotao do dlar a 3,15 reais. No caso do produto interno bruto (PIB) em 2015, a queda prevista passou de 1,46% para 1,93%. 
     No h cenrio de retomada imediata para a economia. Na melhor das hipteses, o pas retornaria s condies que apresentava at o incio de junho  ou seja, antes da reviso das metas oramentarias e do agravamento da crise entre a presidente Dilma Rousseff e o Congresso. "Esse cenrio otimista poderia se concretizar a partir de um acordo poltico entre o governo, o PMDB e a oposio para aprovar as medidas mais importantes de conteno dos gastos e de aumento das receitas federais", exemplifica Juan Jensen, scio da Tendncias. Nessa perspectiva, o pas encolheria 1,5% neste ano, mas voltaria a crescer em 2016, ainda que de forma moderada, com uma expanso de 0,8%. Em 2017, a alta seria de 2,3%. A inflao recuaria e ficaria dentro da margem de tolerncia da meta no prximo ano, com uma taxa de 5,4%. No , como se percebe, uma perspectiva capaz de despertar euforia entre os brasileiros, embora, pelas projees dos economistas, esse seja um cenrio positivo (veja o cenrio 3). 
     H um cenrio intermedirio, que corresponde  manuteno do grau de investimento, mas sem a melhora no ambiente poltico que permitiria ao governo adotar as medidas desejadas para reequilibrar as contas pblicas (veja o quadro 2). Nesse caso, a economia cairia 1,9% e ficaria praticamente estagnada em 2016, com avano de 0,35%. "As expectativas vm mostrando forte deteriorao no ltimo ms. O anncio pelo governo de que o ajuste fiscal ficou mais distante e que ser feito de forma gradual at 2018 est ocasionando uma maior precificaco de risco e motivando revises dos cenrios", afirma Jensen. Segundo o economista, "mesmo que o pas preserve o selo de grau de investimento, haver uma trajetria pior da economia, refletida em crescimento menor e maior depreciao cambial". 
     O rebaixamento traria consequncias graves para a economia, que voltaria a se retrair em 2016 (veja o cenrio 1). Seria a primeira vez que o Brasil encolheria dois anos seguidos desde a Depresso de 1930. Segundo as projees da Tendncias, a cotao do dlar dispararia para 4,50 reais no pior cenrio, contagiando de forma relevante a inflao por meio do preo de produtos importados. 
     Um estudo da equipe econmica do banco Credit Suisse analisou os dados dos seis momentos (incluindo o atual) em que o Brasil entrou em recesso desde 1996. O diagnstico  que o processo de retomada da atividade atual ser o mais prolongado. O pas conseguir retornar ao nvel de atividade do primeiro trimestre de 2014 (que antecedeu o incio da retrao) depois de 2016. Ou seja, levar onze trimestres para se recuperar da crise. Nas cinco recesses anteriores, a economia brasileira havia levado no mximo seis trimestres para retomar o nvel de atividade. 
     "Em quatro dos cinco episdios analisados, o ajuste a choques recessivos foi realizado com o aumento da competitividade externa. Em apenas um desses episdios (na recesso de 2008), a retomada foi completamente explicada pela performance da demanda domstica, em perodo marcado por expressivos estmulos fiscais e monetrios", escreve Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse.  uma alternativa hoje pouco provvel, tendo em vista a necessidade de rearranjo das contas pblicas e de controle da inflao. 
     Apesar da nfase dada no debate pblico aos alegados efeitos das medidas de reequilbrio fiscal sobre a economia, foi na verdade o escndalo de corrupo na Petrobras o principal causador da recesso deste ano, segundo clculos da Tendncias. A paralisao de projetos vai derrubar os investimentos da estatal em 30% neste ano, com efeito multiplicador negativo sobre a atividade econmica. Os investimentos em infraestrutura devem cair 15%, por causa do aperto sobre as empreiteiras suspeitas de envolvimento no esquema. Tudo somado, a conta que se faz  que a Operao Lava-Jato vai subtrair 1,9 ponto porcentual do PIB neste ano. Posto de outra forma, o pas conseguiria evitar a recesso no fosse a corrupo na estatal. O responsvel por esse custo, direta ou indiretamente, foi o governo. 

CENRIO 1 A TEMPESTADE SE AGRAVA
Se o Brasil perder a classificao de grau de investimento, ser mais difcil atrair investidores. A cotao do dlar subiria ainda mais, alimentando a inflao e levando  alta dos juros. A recesso se aprofundaria.

TAXA DE CMBIO (do dlar, em reais, no fim do ano)
2010: 1,70
2011: 1,90
2012: 2,00
2013: 2,30
2014: 2,70
2015: 3,50
2016: 4,50
2017: 4,60
2018: 4,70

VARIAO DO PIB
2010: 7,6%
2011: 3,9%
2012: 1,8%
2013: 2,7%
2014: 0,1%
2015: -1,9%
2016: -0,2%
2017: 0,8%
2018: 0,2%

INFLAO (IPCA)
2010: 5,9%
2011: 6,5%
2012: 5,8%
2013: 5,9%
2014: 6,4%
2015: 9%
2016: 6,6%
2017: 7,7%
2018: 7,5%

TAXA SELIC (mdia no ano)
2010: 9,8%
2011: 11,7%
2012: 8,5%
2013: 8,2%
2014: 10,9%
2015: 13,8%
2016: 16,9%
2017: 18,4%
2018: 16,7%

Fonte: consultoria Tndencias


CENRIO 2 O BRASIL ESCAPA DO PIOR
Essa  a perspectiva atual para a economia, sem considerar a possibilidade de novos choques negativos ou de eventuais notcias positivas. O pas evita o rebaixamento, mas cresce pouco e s sai da recesso em 2016

TAXA DE CMBIO (do dlar, em reais, no fim do ano)
2010: 1,70
2011: 1,90
2012: 2,00
2013: 2,30
2014: 2,70
2015: 3,50
2016: 3,70
2017: 4,00
2018: 4,20

VARIAO DO PIB
2010: 7,6%
2011: 3,9%
2012: 1,8%
2013: 2,7%
2014: 0,1%
2015: -1,9%
2016: 0,4%
2017: 1,7%
2018: 1,6%

INFLAO (IPCA)
2010: 5,9%
2011: 6,5%
2012: 5,8%
2013: 5,9%
2014: 6,4%
2015: 9%
2016: 6,2%
2017: 5,8%
2018: 5,8%

TAXA SELIC (mdia no ano)
2010: 9,8%
2011: 11,7%
2012: 8,5%
2013: 8,2%
2014: 10,9%
2015: 13,8%
2016: 15,6%
2017: 14,1%
2018: 12,6%


CENRIO 3 OS AJUSTES SURTEM EFEITO
A aprovao das reformas destinadas a conter os gastos pblicos resultaria no resgate da credibilidade do governo e do pas. A tempestade seria dissipada, e a economia voltaria a crescer em ritmo saudvel, embora modesto

TAXA DE CMBIO (do dlar, em reais, no fim do ano)
2010: 1,70
2011: 1,90
2012: 2,00
2013: 2,30
2014: 2,70
2015: 3,10
2016: 3,30
2017: 3,70
2018: 3,90

VARIAO DO PIB
2010: 7,6%
2011: 3,9%
2012: 1,8%
2013: 2,7%
2014: 0,1%
2015: -1,5%
2016: 0,8%
2017: 2,3%
2018: 2,5%

INFLAO (IPCA)
2010: 5,9%
2011: 6,5%
2012: 5,8%
2013: 5,9%
2014: 6,4%
2015: 8,9%
2016: 5,4%
2017: 4,7%
2018: 5%

TAXA SELIC (mdia no ano)
2010: 9,8%
2011: 11,7%
2012: 8,5%
2013: 8,2%
2014: 10,9%
2015: 13,5%
2016: 13,8%
2017: 11,6%
2018: 10,5%
_______________________________________________


4# BRASIL 5.8.15

     4#1 O TEOREMA DA CORRUPO
     4#2 FALTA DIZER ALGO
     4#3 DELAES EM MASSA
     4#4 PEIXE, ESSA CONTA NO FECHA

4#1 O TEOREMA DA CORRUPO
Banco do Brasil, Petrobras, Eletrobras... A Operao Lava-Jato mostra que as estatais e rgos pblicos seguiram  risca o enunciado de 2003 do governo Lula.
DANIEL PEREIRA E HUGO MARQUES

     Lula e Jos Dirceu tm em comum o receio real ser presos pela Operao Lava-Jato. Esse sentimento compartilhado por eles  justamente o que os separa. O ex-presidente no perde uma oportunidade de lembrar que Renato Duque, o ex-diretor de Servios da Petrobras preso sob a acusao de recolher propinas para o PT, era homem da confiana de Dirceu. Especializado na arte de transferir responsabilidades e, principalmente, irresponsabilidades, Lula est deixando seu antigo brao-direito fortemente contrariado. Dirceu j avisou que no levar mais uma bala endereada ao ex-presidente. Caso seja preso novamente, ser quase inevitvel que ele fale e una os elos que faltam para o desenho completo do modelo de governabilidade da era Lula, baseado na compra de apoio parlamentar. No mensalo, Dirceu carregou quase sozinho culpas que lhe teriam sido bem mais leves se divididas com o ex-presidente. 
     Depois da vitria de Lula em 2002, Dirceu defendeu a tese de que o governo garantiria a maioria no Legislativo unindo petistas, peemedebistas e at setores do PSDB. As conversas nesse sentido andavam bem quando foram desautorizadas pelo presidente eleito. Lula optou por fechar alianas no varejo. Foi a festa para PTB, PR e PP. Foi tambm o comeo do escndalo do mensalo. Dirceu se sente injustiado quando Lula e o PT do vazo  verso de que foi dele a ideia de comprar apoio entre partidos mais sensveis ao vil metal.  inegvel que Dirceu foi o operador do esquema que resultou no escndalo. Mas quem seria o pai da ideia? Essa  uma pergunta ainda em aberto. Alis, tambm est em branco o lugar destinado ao pai na certido de nascimento do petrolo. Talvez no por muito tempo. 
     Em entrevista recente ao jornal Folha de S.Paulo, o deputado Miro Teixeira (Pros-RJ) disse que Lula "caiu em tentao" ao montar sua base aliada. O parlamentar no  oposicionista, golpista nem conspirador. Pelo contrrio, fala com a autoridade de quem foi ministro de Lula e participou de uma reunio, em janeiro de 2003, em que foram tratadas a formao e a composio da base aliada. "Havia quem dissesse que a maioria poderia ser em torno de projetos. E havia quem dissesse que aquele Congresso burgus poderia ter uma maioria organizada por oramentos. Essa tendncia dos que quiseram organizar pelo oramento foi vitoriosa", revelou Miro, resumindo o pecado original do PT. Desde 2003, o partido usa ministrios, estatais e o oramento mastodntico da Unio para comprar parlamentares e financiar seu projeto de poder. 
     O mensalo foi bancado em parte com recursos desviados do Banco do Brasil. A descoberta do escndalo, em 2005, no inibiu o funcionamento de outros esquemas de corrupo. Segundo o Ministrio Pblico e a Polcia Federal, ex-diretores da Petrobras receberam propinas de empreiteiras desde 2004, quando assumiram o cargo sob as bnos do PT e do PP. O petrolo permitiu, por baixo, o desvio de 19 bilhes de reais dos cofres da Petrobras e funcionou at o ano passado. Os delatores esto contando em detalhes como empresas que se locupletaram desse dinheiro financiaram campanhas presidenciais de Lula e Dilma Rousseff. 
     "A corrupo no Brasil  endmica e est em processo de metstase", afirmou o procurador Athayde Ribeiro Costa, integrante da fora-tarefa da Lava-Jato. Na semana passada, a polcia prendeu o vice-almirante da reserva Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, acusado de receber 4,5 milhes de reais em propina de cinco empresas envolvidas na construo da usina de Angra 3. Depois do mensalo e do petrolo, foi puxado agora o fio da meada do que j se batizou de eletrolo. O empresrio Ricardo Pessoa havia dado uma pista da alta voltagem desse esquema ao revelar s autoridades em sua delao o envolvimento no eletrolo de Valter Cardeal, diretor da Eletrobras e "o homem da Dilma" no setor eltrico. A rea de atuao de Cardeal era a obra de construo da usina nuclear de Angra 3. 
     O mensalo foi substitudo pelo petrolo, que funcionou em paralelo ao eletrolo. A diferena entre eles  apenas a cor do cofre. O esquema era o mesmo. O PT e os partidos aliados nomeavam diretores para as empresas de cada setor e cabia a eles entender-se com as empreiteiras para armar o bote sobre o dinheiro pblico. Quando se dignou a falar de denncia de corrupo, Lula prestou solidariedade aos envolvidos e minimizou o impacto das revelaes assombrosas que surgiam. "Sai na urina", disse Lula. Eleita presidente, Dilma comeou demitindo ministros e altos funcionrios flagrados em "malfeitos". Foi a fase da "limpeza tica". Durou pouco. Devagarinho, os acusados de corrupo foram retomando seu posto no governo. 
     Fora da Operao Lava-Jato, corre em segredo de Justia um processo com 54 rus, entre eles representantes de dezenove empreiteiras, que respondem pelo superfaturamento de mais de 1 bilho de reais em obras em aeroportos. Entre os rus figuram executivos de empresas investigadas no petrolo e no eletrolo, que distriburam propinas a funcionrios da Infraero. Pelos valores e pela ousadia das investidas sobre o Errio, fica evidente que os hoje rus jamais cogitaram uma punio. 
     A impunidade parece estar ficando para trs na triste histria brasileira. As investigaes e punies dos envolvidos no petrolo demonstram que, como manda a Constituio, os procuradores, os policiais federais e a Justia esto cumprindo seu papel sem distino. Todos so iguais perante a lei. As prises de Marcelo Odebrecht e Lo Pinheiro (veja a reportagem na pg. 72) seriam inimaginveis poucos meses atrs. Lula e Dilma conversaram recentemente em Braslia sobre esses desdobramentos.  quase inacreditvel, mas a sada vislumbrada por criador e criatura ser a compra de apoio no Congresso  justamente a prtica que, abusada, envenenou a poltica brasileira nos ltimos anos. O governo Dilma vai liberar 5 bilhes de reais em emendas e distribuir centenas de cargos at o fim do ano. 

DEMONSTRAO
Os partidos aliados do governo - PT, PMDB, PTB, PP, PR, PDT e PCdoB - ganharam cargos e transformaram as reparties pblicas em mquinas de arrecadao de propina, inclusive em benefcio pessoal de alguns.

Casa Civil (PT)
Jos Dirceu foi condenado e preso pelo crime de corrupo ativa. Tambm foi apontado como o chefe do grupo que organizou e operou o mensalo, o primeiro grande escndalo de corrupo.

Ministrio de Minas e Energia (PMDB) 
Silas Rondeau deixou o cargo em 2007, aps denncia de fraudes em licitaes envolvendo uma construtora. Ele foi acusado pela Polcia Federal de receber propina. 

Casa Civil (PT) 
Principal assessora da ento ministra Dilma Rousseff, Erenice Guerra foi demitida em 2010, aps a revelao de que seus parentes cobravam propina para facilitar negcios no governo. 

Ministrio dos Transportes (PR) 
Alfredo Nascimento foi o primeiro ministro a ser demitido por corrupo no governo Dilma. Seu partido cobrava propina das empresas que prestavam servios ao ministrio. 

Ministrio da Agricultura (PMDB) 
Wagner Rossi perdeu o cargo depois da revelao de que seu partido montara um esquema de cobrana de propina em vrios rgos do ministrio. 

Ministrio do Esporte (PCdoB) 
Orlando Silva deixou o ministrio depois de uma sucesso de escndalos envolvendo repasses de recursos para ONGs que tinham ligaes com seu partido. Ele tambm foi acusado de receber propina.

 Ministrio do Trabalho (PDT) 
O esquema dos Transportes, da Agricultura e do Esporte foi descoberto tambm no Trabalho. Carlos Lupi deixou a pasta aps denncias de irregularidades envolvendo ONGs com pagamento de propina. 

Ministrio do Turismo (PMDB) 
Pedro Novais foi demitido depois de a Polcia Federal prender 38 de seus subordinados envolvidos com desvios milionrios de verbas de convnios, por meio de emendas parlamentares. 

Banco do Brasil 
Em 2005, as investigaes do mensalo mostraram que foram desviados 150 milhes de reais dos cofres do Banco do Brasil para subornar parlamentares e financiar campanhas polticas. 

Infraero 
A Polcia Federal descobriu que as grandes empreiteiras fraudavam as licitaes e superfaturavam o preo de obras em aeroportos. A fraude atingia 1 bilho de reais. O processo ainda est na Justia. 

Petrobras 
Diretores indicados pelos partidos com o aval do governo patrocinaram desvios calculados em 19 bilhes de reais nos ltimos oito anos. O dinheiro desviado subornou polticos e financiou campanhas eleitorais.

Eletrobras 
Na semana passada, os investigadores da Lava-Jato descobriram que o esquema de corrupo envolvendo partidos, polticos e empreiteiras foi reproduzido tambm no setor eltrico. 


4#2 FALTA DIZER ALGO
A advogada Beatriz Catta Preta acusa "membros da CPI" da Petrobras de t-la ameaado e diz que, por causa disso, decidiu "encerrar a carreira". Isso faz sentido?
ANA CLARA COSTA

     Beatriz Catta Preta diz que se sente ameaada. Ningum pode arvorar-se a desmenti-la. O sentimento, como a renncia de um presidente da Repblica,  unilateral. No cabe discusso. Excelente penalista, Catta Preta sabe bem o que dispe o Artigo 147 do Cdigo Penal brasileiro. Est estabelecido pela jurisprudncia que ameaa  crime formal e sua consumao ocorre independentemente de qualquer resultado, no sendo necessrio que a vtima se sinta ameaada. A questo psicolgica  indiscutvel. Mas, quanto ao direito, cabe a ela transcender o sentimento e revelar quais foram as ameaas recebidas. O assunto deixa de ser de foro ntimo para entrar no campo jurdico, que ela domina profissionalmente como poucos. 
     Que ameaas foram essas que a levaram a anunciar que sairia dos casos em que trabalha na Operao Lava-Jato e, mais drstico ainda, "encerrar a carreira"? Por mais que ela tenha dominado a cena na semana que passou, a doutora tem de esclarecer que ameaas sofreu, pois em relao  autoria ela foi clara: "Membros da CPI da Petrobras". A questo s comear a ser elucidada quando Catta Preta oferecer evidncias  que tirem as ameaas do campo do sentimento e as coloquem na letra do Cdigo Penal, que, alis, lhe  muito mais favorvel, pois basta que se prove a ameaa, no sendo necessrio sequer que ela tenha se sentido ameaada. 
     No incio de julho, a advogada, responsvel por nove das dezoito delaes fechadas quela altura na Lava-Jato (agora so 22), foi ao salo de cabeleireiros Studio W, no shopping Iguatemi de So Paulo, escoltada por dois seguranas  uma cena que chamou a ateno dos funcionrios, acostumados a ver a cliente habitual chegar sozinha. Em maio, ela j havia trancado a matrcula escolar do filho mais velho. No ms seguinte, tirou da escola a caula, de 3 anos. Por fim, no meio de julho, a advogada fechou seu escritrio. Na quinta-feira, em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, afirmou que decidiu "encerrar carreira na advocacia" porque vinha recebendo ameaas "veladas, cifradas" e temia pela segurana de sua famlia. 
     As "tentativas de intimidao", disse ela, aumentaram depois que seu cliente Jlio Camargo acusou o presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de ter-lhe pedido 5 milhes de dlares de propina. Camargo no havia citado Cunha em depoimento anterior. Catta Preta atribuiu a omisso inicial a "receio", pois "ele tinha medo de chegar ao presidente da Cmara". Camargo ficou com medo de que seu silncio inicial sobre Cunha pudesse ser interpretado como omisso, o que poderia inviabilizar seu processo de delao. A deciso de, finalmente, acusar Cunha foi ento uma vitria de um medo sobre outro medo. 
     A advogada no acusou Cunha. Disse que as ameaas "vieram de polticos da CPI" da Petrobras. Ela havia sido convocada pela CPI para explicar a origem dos honorrios que recebeu de clientes-delatores. Nas entrevistas ao Jornal Nacional e ao jornal O Estado de S. Paulo, a advogada nada acrescentou de materialidade  questo central das ameaas. Com a afirmao de que "a famlia nada deve a ningum ou  Justia", ela pareceu  querer afastar a hiptese de que sua brusca mudana de vida e a negativa em comparecer  CPI estejam relacionadas com o histrico policial do marido, Carlos Eduardo Catta Preta  condenado em 2003 a trs anos de prestao de servios comunitrios por ter sido flagrado com 400.000 dlares falsos escondidos. O casal, alis, foi formado durante o processo de Eduardo, em que Beatriz atuou como defensora. Beatriz desfez tambm a tese de que teria fugido do pas, indo morar em Miami. Ela disse que esteve na  Flrida com os filhos em frias. Catta Preta possui uma casa em Miami, comprada em abril atravs de sua empresa americana, a Catta Preta Consulting LLC, por 1,4 milho de dlares. 
     Para uma pessoa to ntima do Cdigo Penal,  estranho que tenha decidido manter a questo no campo abstrato dos sentimentos. Outros envolvidos com o Cdigo Penal, mas do outro lado do balco, tambm se sentiram ameaados. O doleiro Alberto Youssef disse em depoimento estar sendo "intimidado pela CPI da Petrobras, por um pau-mandado do senhor Eduardo Cunha". Ele se referia ao deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), o mesmo que pediu a convocao de Catta Preta  CPI. Jlio Camargo atribuiu as ameaas  omisso anterior do nome de Cunha. "Uma pessoa que age no diretamente, e tem de ameaar voc atravs de terceiros, j  uma pessoa a quem (sic) deve-se ter todo o cuidado." Beatriz levantou graves dvidas sobre a ndole dos "membros da CPI", por cujas ameaas ela desistiu de uma carreira vitoriosa e lucrativa, fechando um escritrio que s com a Lava-Jato faturou cerca de 10 milhes de reais. Est claro que enquanto o assunto permanecer no terreno movedio dos sentimentos no haver progresso. A via que interessa  opinio pblica  a do Cdigo Penal. 
COM REPORTAGEM DE EDUARDO GONALVES


4#3 DELAES EM MASSA
Com os processos avanando em direo a pesadas condenaes, mais envolvidos no escndalo da Lava-Jato se oferecem para contar o que sabem em troca do abrandamento das penas.

     Se todas as negociaes em curso na Justia resultarem em acordos de delao premiada, as investigaes da Operao Lava-Jato tendero a produzir novas e surpreendentes revelaes sobre o maior escndalo de corrupo da histria brasileira. O Ministrio Pblico confirmou que mais cinco envolvidos no esquema de desvio de dinheiro da Petrobras se transformaram em colaboradores, o que significa que aceitaram contar o que sabem em troca da reduo de suas penas. Na reta final do processo, muitos investigados se convenceram de que a delao deixou de ser uma opo. Para alguns  a ltima chance de escapar da cadeia ou cumprir uma pena menor. Na semana passada, VEJA revelou que Lo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, autorizou seus advogados a trilhar o caminho da delao. Acusado de corrupo, o executivo se diz detentor de informaes valiosas e comprometedoras sobre relaes financeiras do ex-presidente Lula com a empreiteira. 
     "A famlia dele incentiva, o controlador da empresa quer e ele autorizou a conversa com a Procuradoria ao saber que seus netos estavam sofrendo bullying na escola", confirmou a VEJA um funcionrio da OAS. A estratgia de Lo Pinheiro, porm, enfrenta resistncias entre os seus defensores. A primeira reunio sigilosa com um dos procuradores da Repblica encarregados da Operao Lava-Jato ocorreu em Braslia no incio de julho. Na ltima semana, Edward Carvalho, um dos advogados da OAS, divulgou uma nota negando a inteno de Lo Pinheiro de fazer o acordo: "Se negociaram a delao do Lo sem eu saber, abandono a defesa, porque sou radicalmente contra isso". 
     A reunio com a Procuradoria ocorreu sem que Carvalho soubesse e foi conduzida por um dos mais importantes advogados do corpo jurdico da OAS, que responde diretamente ao dono da empreiteira, Csar Mata Pires. "Alguns (advogados) esto esperneando. No querem que o Lo vire delator porque eles tm outros clientes e interesses na Lava-Jato. Mas ns entendemos que o Lo tem de pensar em si prprio, na famlia e na empresa. A delao agora  o melhor caminho", disse o advogado, na condio de, por enquanto, no ter a sua identidade tornada pblica. 
     Dois ex-diretores da Petrobras tambm autorizaram seus advogados a  iniciar as tratativas para obter o benefcio da delao premiada. O primeiro  Renato Duque, ex-diretor da rea de servios, preso sob a acusao de desviar 500 milhes de reais. O segundo  Nestor Cerver, ex-chefe da rea internacional da estatal, tambm preso. Cerver avanou bastante, e j disse aos procuradores o que pretende revelar.
ROBSON BONIN


4#4 PEIXE, ESSA CONTA NO FECHA
Confrontado com o extrato de uma conta na Sua, Romrio voou para Genebra e negou ter dinheiro no declarado ao Fisco no exterior. Foi mesmo uma viagem.

     Falso." O carimbo vermelho sobre um extrato bancrio. Essa imagem circulou freneticamente pelas redes sociais na semana passada impulsionada pelo senador carioca Romrio de Souza Faria, o imortal craque que tantas alegrias deu aos brasileiros nos gramados e que tenta a mesma sorte na  poltica. O extrato de uma conta-corrente no banco BSI, da Sua, com saldo equivalente a 7,5 milhes de reais, havia sido publicado por VEJA na semana anterior. O carimbo vermelho foi colocado pelo senador depois da viagem a Genebra. 
     "Chateado! Acabei de descobrir aqui em Genebra, na Sua, que no sou dono dos R$ 7,5 milhes", postou o ex-craque. 
     O senador Romrio deve ter se tornado, na ltima semana, a primeira pessoa a voar para a Sua motivada pelo extrato de uma conta que garante no possuir e depois anunciar, triunfante, que no tem mesmo. Ele viajou acompanhado da ex-mulher Isabella Bittencourt, que j morou na Sua, onde ainda tem famlia. Na quarta-feira, acompanhado de Isabella e de dois advogados, foi ao BSI. Tomou l suas providncias e saiu anunciando no ser dono daqueles milhes. O BSI, comprado no ano passado pelo brasileiro BTG Pactual, de Andr Esteves, se comprometeu com os advogados de Romrio a se posicionar sobre o caso. 
     Procurado por VEJA antes da publicao da reportagem, Romrio foi bem menos enftico. Disse ele: "Para ser sincero, no sei se fechei (contas na Europa). Mas nunca mais movimentei. No tenho conhecimento dessa (na Sua). At agradeo voc me dizer". Nas redes sociais, a princpio, Romrio ainda no estava de todo certo: " possvel que tenha sobrado algum rendimento. Honesto e suado". A viagem-relmpago  Sua e a visita  agncia do BSI de Genebra subiram o tom do discurso. Romrio saiu de l aliviado. VEJA publicou a reportagem sobre o senador Romrio, um servidor pblico, cumprindo o papel mais nobre da imprensa. O extrato que ilustra a reportagem est nas mos do Ministrio Pblico Federal. Ao contrrio de Romrio, VEJA no tem nenhuma razo para duvidar da autenticidade do extrato que publicou. Essa conta, portanto, no fecha facilmente. 
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5# INTERNACIONAL 5.8.15

     5#1 NO D PARA VOLTAR
     5#2 ESCRAVOS DAS IDEIAS

5#1 NO D PARA VOLTAR
Fugindo de pases conflagrados como a Sria, o Afeganisto e o Sudo, migrantes arriscam a vida para entrar no Eurotunel e trabalhar clandestinamente na Inglaterra.
DUDA TEIXEIRA

     Com uma obra gigantesca de 50 quilmetros estendendo-se por baixo do Canal da Mancha e ligando Inglaterra e Frana, o Eurotunel foi celebrado em sua inaugurao, em 1994, como um lao de unio entre os povos. Produtores franceses comemoraram o acesso rpido aos supermercados dos ingleses, os quais comearam a fazer uso intenso dessa facilidade nas viagens de lazer. Na semana passada, bem nas frias escolares do Hemisfrio Norte, os passageiros e usurios do Eurotunel escutaram um aviso indito e surpreendente. A operao estava temporariamente suspensa devido a uma "atividade migrante intensa". 
     Na ponta francesa do tnel, onde fica a cidade de Calais, milhares tentavam ingressar clandestinamente nos caminhes e carros que faziam fila para subir nos vages em direo  Inglaterra. Oriundos de pases para os quais  quase impossvel retornar, como Sria, Eritreia, Somlia, Afeganisto e Sudo, eles estavam dispostos a  assumir qualquer risco para tentar uma nova vida no pas que escolheram. Quebravam com ps de cabra os cadeados das portas traseiras do ba dos caminhes para se esconder com a carga. Outros subiam nas carrocerias ou se acomodavam na parte de baixo, entre os eixos. Motoristas que buzinavam para avisar os colegas eram ameaados com punhos fechados e xingamentos. Passageiros de veculos de passeio foram orientados a manter os vidros fechados para no ser incomodados. Armados com cassetete, gs lacrimogneo e spray de pimenta, guardas perseguiam os invasores abrindo as carrocerias ou correndo pelo acostamento. Em alguns momentos, os uniformizados ficavam completamente sem ao, atnitos. Como os migrantes sabiam que estavam em nmero muito maior, combinavam de entrar nas zonas proibidas todos ao mesmo tempo. 
     O caos ganhou contornos mais preocupantes com a morte de dez migrantes no Eurotunel desde o incio de junho. Na semana passada, um jovem sudans, aparentando ter entre 25 e 30 anos, morreu atropelado por um caminho. Um egpcio foi eletrocutado quando tentava pular do teto de um trem para o de outro. 
     Ainda que infiltraes aconteam desde a criao do tnel, na dcada de 90, o movimento anormal das ltimas semanas  um reflexo tardio da onda migratria que se elevou em 2011. As manifestaes contra ditaduras no norte da frica e no Oriente Mdio depuseram alguns chefes autoritrios, mas no instalaram regimes estveis no lugar. O vcuo de poder ainda deu espao para que grupos terroristas, como o Estado Islmico, ganhassem territrio. Outro ponto fundamental para explicar a crise  a situao da Lbia. Fragmentado desde a queda de Muamar Kadafi, o pas tornou-se um porto de embarque de pessoas das mais variadas nacionalidades, que pagam para ser transportadas por barcos atravs do Mar Mediterrneo. Ao descer na Itlia, na Espanha ou na Grcia, a maioria se prepara para continuar a viagem rumo ao norte da Europa, onde imagina que as condies de vida so melhores e h mais benefcios. Essa esperana ajuda a explicar por que muitos, mesmo j na Frana, ainda querem cruzar o Canal da Mancha. "Alm disso, vrios deles possuem parentes trabalhando na Inglaterra, falam ingls ou querem aprender a lngua", diz a sociloga inglesa Bridget Anderson, especialista em migrao na Universidade de Oxford. Como no h uma previso de melhora nos pases conturbados da frica e do Oriente Mdio, o fluxo para o norte da Europa deve aumentar, assim como o contorcionismo para assimilar culturas to diversas. Ainda que as mortes no Eurotnel chamem ateno, o problema  uma frao das migraes em geral. Cerca de 86% dos que fogem de  pases conflagrados permanecem em naes em desenvolvimento. "As dificuldades legais fazem com que a Europa receba poucas pessoas. Esses milhares tentando entrar na Inglaterra representam uma frao dos que esto no Lbano, na Jordnia e na Turquia", diz o italiano Eugnio Ambrosi, diretor da Organizao Internacional de Migrao para a Unio Europeia. 


5#2 ESCRAVOS DAS IDEIAS
O Sendero Luminoso sequestra mulheres e crianas e mantm o objetivo de instaurar uma ditadura maoista no Peru. Com essa turma, no h chance de negociao.
NATHALIA WATKINS

     Extremistas, quando dominam um territrio, tornam-se capazes de perpetuar as piores crueldades, quase sempre elegendo mulheres e crianas como vtimas preferenciais. Na segunda-feira 27, soldados peruanos resgataram escravos em um dos trs campos de trabalhos forados do grupo esquerdista Sendero Luminoso. Alguns eram da tribo ashaninka e tinham sido sequestrados trs dcadas antes, em uma invaso a um hospital psiquitrico. O grupo de refns inclua 26 crianas com idade entre 1 e 14 anos, dez mulheres e trs homens. Os pequenos, como nasceram confinados, nunca haviam desfrutado a sensao de uma vida em liberdade. Trabalhavam na lavoura para prover comida aos seus algozes. As mulheres eram vtimas de repetidos abusos sexuais e tinham a funo de reprodutoras. Forneciam soldados e assim garantiam que o esprito de combate fosse transmitido s prximas geraes. 
     O Sendero foi responsvel pela maior parte das 69.000 mortes causadas durante o conflito armado que se estendeu no Peru de 1980 a 2000. Suas vtimas foram principalmente esquerdistas e indgenas. Inspirado na Revoluo Cultural chinesa, que comeou em 1966 e dizimou os quadros menos radicais do Partido Comunista Chins, tem por meta destruir qualquer rasgo de democracia e instaurar uma ditadura maoista pela luta armada. Conta com um contingente de 350 a 600 homens armados. Atualmente, concentra-se na rea do vale dos rios Apurmac, Ene e Mantaro, conhecida pela sigla Vraem. Nessa regio montanhosa, onde a presena do Estado  quase nula, o grupo  a nica instituio vigente e mantm seu domnio principalmente por meio da violncia. "Se algum os denuncia,  degolado e pendurado numa corda em um local pblico. Com medo, os camponeses vivem na pobreza e se submetem aos terroristas", diz o analista de segurana e narcotrfico peruano Pedro Yaranga. Desde 1984, os terroristas se sustentam com o imposto de guerra dos plantadores da folha de coca, a matria-prima da cocana e do crack. O Vraem produz 70% da cocana peruana, mais de 200.000 toneladas por ano. O Peru  hoje o segundo pas com a maior rea de cultivo de coca, atrs apenas da Colmbia. 
     Em seus feudos nas montanhas, o Sendero realiza um pesado doutrinamento poltico. Segundo seus ensinamentos, todos os que vivem nos campos so obrigados a defender a tomada do poder pela luta armada. Por isso, na semana passada, alguns at esboaram uma reao quando viram soldados. As crianas aprendem o b--b da revoluo desde os 8 anos. Com 12, recebem armas e ingressam na fora principal. Em um vdeo divulgado pelo grupo em setembro de 2014, um dos dirigentes apresenta seus combatentes, a maioria com idade entre 20 e 30 anos, fortemente armados com fuzis, metralhadoras, granadas e munio em abundncia. Na filmagem, crianas observam os mais velhos carregando as armas, muitas vezes maiores do que eles mesmos. 
     A verve maoista do Sendero Luminoso faz com que negociaes de paz, como as que esto em andamento entre o governo colombiano e as Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc, hoje com mais de 6000 soldados), sejam impensveis. O Sendero foi fundado pelo professor universitrio de filosofia Abimael Guzmn no fim da dcada de 60 e teve seu apogeu nos anos 1980, quando o Peru voltou  democracia. O declnio veio principalmente aps a dissoluo do Parlamento pelo presidente Alberto Fujimori, em 1992. Com poderes ampliados, o presidente lanou uma dura campanha militar e ps grupos clandestinos no encalo dos senderistas. "A maioria dos peruanos no sabe o que  o Sendero ou no se lembra do grupo, que matou tanta gente que nunca encontraremos todas as fossas comuns nas quais enterrou suas vtimas", diz o ex-juiz Jos Daniel Rodriguez Robinson, que investigou crimes dos terroristas na dcada de 90. Desde sua priso, em 1992, Guzmn afirma ter renunciado  luta armada. A maior parte dos seus seguidores entendeu seu apelo, mas uma minoria, hoje no Vraem e ainda presa  ideologia, duvida das suas declaraes. "O Sendero Luminoso mantm o objetivo de instaurar uma ditadura maoista no Peru e no tem nenhum receio de matar pessoas para conseguir isso", diz o analista peruano Yaranga. 
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6# GERAL 5.8.15

     6#1 GENTE
     6#2 AMBIENTE  A VIDA BREVE DE CECIL
     6#3 EDUCAO  ENTRE A BELEZA E  FRIEZA
     6#4 SADE  ADEUS AOS GRANDES,  A VEZ DOS PEQUENOS!
     6#5 OLIMPADA  A UM ANO DOS JOGOS, LONDRES ESTAVA ASSIM... E O RIO EST ASSIM

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Karina Morais e Thais Botelho

MAS SER POSSVEL?
"Foi desrespeitoso. Ela desconsiderou toda a complicada situao do Isl na Frana. Burca no pode ser usada por qualquer um e quando convm."  o que pensa Mhammed Henniche, responsvel por um conselho de trinta mesquitas em Seine-Saint-Denis, o corao da Frana islmica, sobre a possibilidade de serem GISELE BUNDCHEN e sua irm as duas mulheres cobertas entrando numa clnica de cirurgia plstica em Paris. A informao  do jornal New York Post. O motorista e o carro que as levaram at o local so os que a modelo usa h anos, e ela foi fotografada saindo da clnica, sem burca, quinze dias antes de a foto fatdica ser feita. Funcionrios fofocam que Gisele teria operado os olhos, entre outras partes do corpo. A modelo no disse palavra. Nada tambm, alis, sobre o outro fato espinhoso da semana: seu marido, o jogador de futebol americano Tom Brady, investigado por uma trapaa numa partida importante, disse que destruiu seu telefone celular em que, acreditam os investigadores, havia informaes que mostravam seu envolvimento na fraude. 

TEMPERO DE FAMLIA
Ela causou um fuzu, dias atrs, ao dizer que era melhor escovar os dentes com crcuma do que com pasta de dentes. Para quem pensa que a chef BELA GIL desistiu das dicas maluco-beleza, ela pe mais pimenta na receita. "Tiro maquiagem com leo de gergelim e fao desodorante com leite de magnsia, gua e leo de lavanda", diz Bela, que manda batata-doce de lanche da escola para a filha e faz churrasco de melancia. Seu livro de receitas culinrias naturais est h meses na lista dos mais vendidos, e seu programa de TV, de mesmo tema,  to comentado que ganhou a quarta temporada, a estrear no dia 4. Em defesa da filha de Gilberto Gil, tem gente usando camiseta com a frase "Free Bela Gil", e sua irm, a cantora Preta, disse: "Relaxa".  de famlia. 

A ESTAGIRIA DO MS 
Daqui a poucos dias, quando voltar s aulas para cursar o ltimo ano da escola, MALIA OBAMA, 17, a primeira-filha americana, vai poder fazer (mais) inveja s amigas. Agora nas frias, ela est estagiando na produo da srie Girls, a preferida entre as garotas moderninhas. Malia quer fazer faculdade de cinema e, no ano passado, j havia trabalhado numa produo de Steven Spielberg em que serviu cafezinho e ajudou a bloquear o pblico numa cena de tiros.  claro que ningum reclama dos seis seguranas do servio secreto que esto sempre perto dela, nem do fato de Malia ter dado um tempinho no estgio para, com a me, fazer um role pela Europa e tomar um ch com o prncipe Harry. 

O FACE EM FESTA
Colocando em proporo: EDUARDO SAVERIN, 33, brasileiro que ajudou a fundar o Facebook, tem 5 bilhes de dlares. Por isso, o casamento com ELAINE ANDRIEJANSSEN foi para ele o que seria uma festinha nossa, num bufe de bairro: cerca de 300 convidados ficaram hospedados nos trs hotis mais caros de Cap Ferrat, no sul da Frana. Todos tinham  disposio uma frota de Bentleys, Porsches, Ferraris e Aston Martins para passear por Mnaco e Nice. Foram trs dias de festa, com jantares, shows, inclusive de Alicia Keys, apresentao de bal aqutico na piscina e fogos no mar. "Estou ansioso para construir uma famlia e tornar o mundo um lugar melhor", disse Saverin. Mark Zuckerberg, scio majoritrio do Face, saiu na frente: ele anunciou que sua mulher, de origem chinesa  como Elaine , est grvida de uma menina. 


6#2 AMBIENTE  A VIDA BREVE DE CECIL
Como um dentista americano cujo hobby  caar virou vilo global ao torturar e matar ilegalmente o mais querido leo entre os turistas que visitam a frica, macho alfa de um bando que vivia numa rea protegida do Zimbbue.
FERNANDA ALLEGRETTI

     No dia 1 de julho, um grupo de caadores amarrou uma carcaa na traseira de um jipe e usou o animal morto para atrair Cecil, um magnfico leo de 13 anos, para fora da rea de proteo ambiental do Hwange National Park, no Zimbbue. Cecil seguiu o rastro. Pouco tempo depois, foi atingido por uma flecha, provavelmente disparada por um arco composto, prprio para abater grandes mamferos. O ferimento no foi suficiente para derrub-lo. Cecil passou quarenta horas arrastando-se e sendo perseguido pelos caadores, que, ao o encontrarem novamente, utilizaram um fuzil para pr fim  agonia. Decapitaram-no, ento, e arrancaram-lhe a pele. O que sobrou do corpo foi deixado para trs. Casos como o de Cecil, infelizmente, so comuns. Mas os detalhes de sua morte, aliados  ilegalidade da caa e ao fato de que o leo era o mais querido pelos turistas na frica, estudado pela Universidade de Oxford, contriburam para criar uma comoo mundial. 
     Durante muito tempo, at cerca de um sculo atrs, as caadas eram uma atividade nobre, sinnimo de virilidade, de supremacia da inteligncia humana sobre os animais. Ningum protestava quando um bicho selvagem era morto. Pelo contrrio, festejava-se com orgulho civilizatrio. No conto A Vida Breve e Feliz de Francis Macomber (na traduo de J.J. Veiga), publicado em 1936, o escritor americano Ernest Hemingway descreve como a mulher do protagonista o humilha pelo fato de ele no conseguir matar um leo. Viceja, no texto seco, sem gordura, a glamourizao da caa. H muito pouco temor e compaixo pelos animais. Macomber tem medo mesmo da infidelidade da companheira. "Ra-ra-bum" ("ca-ra-wong", no ingls)  a trilha sonora, o som do disparo do rifle que atinge o rei dos animais. 
     Hoje, mesmo a elegncia da prosa de Hemingway soaria bruta. Matar um animal por esporte  no por defesa ou alimentao   um ato interpretado como cruel e covarde. Viris so os defensores dos animais, que gritam contra caadores acostumados a abater as presas a distncia, guiados por especialistas ou traficantes de animais em ambientes controlados. A mudana de sensibilidade ajuda a entender o espanto diante da vida abreviada e infeliz do leo Cecil. 
     As primeiras notcias sobre sua morte comearam a aparecer h duas semanas. Na tera-feira 28, a repercusso ganhou fora com a identificao do algoz, o dentista e caador amador Walter Palmer, de 55 anos, morador do Estado americano de Minnesota. Nesse dia, de acordo com levantamento da Bites Consultoria, a hashtag #CecilTheLion passou seis horas entre os assuntos mais vistos do Twitter. Como reflexo do sentimento geral, o governador de Minnesota, Mark Dayton, se pronunciou: "Estou enojado. Como se pode pensar que isso  um esporte?". 
     Especula-se que o dentista teria pago o equivalente a 170.000 reais para caar Cecil. Escondido desde que o caso veio a pblico, Palmer escreveu em um comunicado: "No fazia ideia de que o leo era amado. Confiei na expertise dos  guias para assegurar que o ato fosse dentro da lei". Tudo indica ser desculpa esfarrapada. O histrico depe contra o matador. Em 2008, Palmer pagou fiana depois de ser considerado culpado por matar ilegalmente um urso-negro em Wisconsin. O Zimbbue permite a caa de lees, mas absolutamente controlada. Exige licena, impe uma cota autorizada pelo governo e restringe a atividade a reas muito especficas. Palmer descumpriu todas as regras. 
     Segundo a Autoridade de Gerenciamento de Vida Selvagem e Parques do Zimbbue, a caa foi ainda mais criminosa diante das evidncias de que Palmer e outro caador profissional, Theo Bronkhorst, seu guia, conspiraram com um fazendeiro local para atrair e matar Cecil. Nem o guia nem o fazendeiro tinham permisso para caar lees. Ambos podem ser condenados a mais de quinze anos de priso. Os restos de Cecil foram apreendidos. Palmer saiu do Zimbbue, onde  procurado pela Justia. Virou um pria global. 
     Nas ltimas trs dcadas, a frica viu a populao de lees reduzir-se em 60%. Hoje, eles no so mais do que 30.000 e, anualmente, 600 padecem nas mos de exibicionistas como Palmer. O professor de Oxford David Macdonald, fundador da WildCRU, instituio que estudava Cecil, disse a VEJA: "Se h algo de bom na histria,  que ela chamou ateno para a conservao. J recebemos 470.000 dlares em novas doaes". 
     O cuidado dos seres humanos com os bichos tem amparo cientfico. Os contemporneos de Hemingway no tinham como adivinhar, mas ns sabemos hoje que animais tm conscincia de si e que sentem empatia. Um passeio pelas artes ajuda a atestar a mudana construda com base em pesquisas. Em Moby Dick, de 1851, Herman Melville desumaniza uma baleia cachalote branca, que, enfurecida, ataca o navio Pequod e seu capito, Ahab. Em As Aventuras de Pi, de 2001, de Yann Martel, depois levado ao cinema, o jovem nufrago humaniza o tigre-de-bengala com quem divide o bote.  o ponto no qual estamos. 

UMA CARGA INDESEJADA
     Para muitos ambientalistas, a forma mais adequada de combater a caa de animais da fauna africana  a proibio do transporte areo das presas. Afinal, para um caador como Walter Palmer - que matou, ilegalmente, o leo Cecil no Zimbbue - pouco valeria a valentia se ele no pudesse exibir o trofu. Hoje, o transporte de pedaos de elefantes, girafas e lees em avies  legalizado, bastando cumprir exigncias burocrticas. A maioria das companhias areas nem verifica se o abate seguiu as normas. Por enfrentar a prtica, em abril deste ano a South African Airways (SAA), a maior companhia area da frica do Sul, foi aclamada ao banir a entrada de animais mortos em suas aeronaves. O ganho com o transporte desse tipo de carga corresponde a at 10% do faturamento total das empresas areas. Em uma indstria em que a margem de lucro no chega a 2%, a atitude parecia um raro caso de escolha baseada unicamente na tica. No ms passado, porm, a SAA reverteu a deciso. 
     Os defensores da caa alegam que, a rigor, ela at ajudaria a conservar espcies, pois injetaria 200 milhes de dlares nos rinces da frica. Um estudo de 2013, feito por economistas e conservacionistas, rebate a tese. A arrecadao com as caadas corresponderia a pouco mais de 1% dos lucros com turismo nos nove pases investigados. Portanto, a fauna teria mais valor viva do que morta. 
     Nos Estados Unidos e na Europa, a tendncia  dar incio ao modelo contrrio ao da SAA: valoriza-se o ser vivo, mesmo quando h perda de dinheiro. Sim, existe uma pitada de marketing, mas bem-vinda. O maior aeroporto de Nova York, o JFK, planeja inaugurar, em 2016, um terminal dedicado a receber os animais vivos que por l circulam, como cachorros. A americana Delta enfrenta presso popular para adotar conduta similar  da Emirates e da Lufthansa, que no transportam trofus em avies. Trata-se de um esforo global no caminho do bom-senso, o de acabar com matanas sem sentido. 


6#3 EDUCAO  ENTRE A BELEZA E  FRIEZA
Belos manuscritos como esses ao lado so cada vez mais raros. Na era digital, as escolas esto abolindo a aula de caligrafia.
CECLIA RITTO

     H mais de cinco milnios, escrever era gravar smbolos na pedra, na argila e na madeira para registrar aquilo que a memria no dava mais conta de guardar. Ao longo da histria, a escrita foi se organizando e se sofisticando na forma de caligrafia, o ato  ou a arte  de desenhar letras. A mudana criou uma nova elite, a dos calgrafos. Na China, a inventora do papel, s os mestres dos ideogramas ingressavam na ambicionada carreira pblica. No Imprio Romano, talentos precoces eram selecionados para servir exclusivamente ao desenho das palavras. Nos conventos medievais, monges reproduziam a Bblia em manuscritos magnificamente ilustrados. Aos poucos, escrever a mo foi se popularizando, primeiro com penas de aves mergulhadas em tinta, depois com caneta-tinteiro e, a partir dos anos 1940, com a esferogrfica, o instrumento definitivo para dar agilidade  caligrafia. Mas, na era do computador, dos tablets e dos celulares, qual foi a ltima vez que voc pegou  papel e caneta e preencheu uma pgina com texto manuscrito? 
     Tirando os atos de assinar cheques e documentos e rabiscar recados cifrados em Post-its pregados no computador, a escrita cursiva, que emenda as letras umas nas outras em movimentos padronizados, caiu em desuso. Uma pesquisa realizada recentemente na Inglaterra com 2000 pessoas mostrou que uma em cada trs no havia escrito nada com lpis ou caneta nos seis meses anteriores. Escrever agora  teclar, e as escolas comeam a se dobrar  nova realidade. Em 2013, o conjunto de orientaes para o ensino nos Estados Unidos, onde cada estado legisla sobre o tema, deixou de lado a obrigatoriedade das aulas de letra cursiva em prol da digitao. Agora  a Finlndia, ponta de lana do ensino moderno, que anuncia: a partir de 2016, o currculo nacional vai abolir a caligrafia. Drstico demais? No necessariamente. O que se est eliminando  a habilidade de escrever longos textos com boa letra. "Vivemos uma transio natural. As crianas de hoje se sentem  vontade no computador desde os primeiros anos de vida", avalia Claudia Costin, diretora de educao do Banco Mundial. 
     Os defensores da mudana no currculo sustentam que no h por que tomar tempo do aluno com caligrafia quando o que o mundo exige  um exrcito de gente de raciocnio lgico afiado, no importa de que forma ele se expresse. "Teclar, em vez de escrever a mo,  simplesmente a transposio para uma tecnologia mais eficiente", diz Juhani Mykkanen, encarregado de criar um manual para o ensino de coding  a linguagem dos computadores  nas escolas da Finlndia. No Brasil, onde os exames, do vestibular aos concursos pblicos, ainda requerem escrita manual, no se enxerga uma transio radical em futuro prximo. Mas h, sim, escolas que incentivam ao mximo a digitao, sem abandonar a caligrafia. O tradicional Colgio Dante Alighieri, de So Paulo, disponibiliza tablets nas salas de aula desde a alfabetizao. "Nosso objetivo  que os estudantes consigam comunicar coisas interessantes. A caligrafia se tornou secundria", observa a coordenadora-geral de tecnologia, Valdenice Minatel. 
     Se a caligrafia se for, com ela se vo, alm da beleza, benefcios amplamente comprovados. O estmulo  coordenao motora  o mais conhecido, mas h outros. Pesquisas confirmam que o deslizar da caneta sobre o papel para formar palavras estimula o raciocnio. Um estudo da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, comparou a atividade cerebral de crianas de 5 anos no contato com as letras. Um grupo escreveu, outro preencheu pontilhados e o terceiro s observou. Os que escreveram claramente ativaram mais os neurnios e as conexes do chamado circuito de leitura.  sabido ainda que tomar notas a caneta representa, por si s, um exerccio de compreenso da mensagem, pela necessidade de resumi-la enquanto se escreve. O teclado permite registrar mais volume de informao, porm com menor ateno. Indo alm do aspecto cientfico, a letra manuscrita  um retrato da personalidade dos indivduos. Uma nunca  igual  outra, mesmo entre gmeos, ao contrrio de fontes e tipos usados na digitao. Ao criar um texto em papel, o autor se espalha nas margens, nas anotaes no p de pgina, nos rabiscos  enfim, deixa l um retrato do processo criativo. Do teclado, ao contrrio, o texto sai frio e limpo; tudo o que veio antes foi soterrado sob a tecla "apagar". 
     Na Antiguidade ensinava-se apenas  base da memria. Quando a escrita foi introduzida, trouxe suas conhecidas vantagens, mas se perdeu aquele poderoso exerccio de absoro de ideias. A transformao de agora tambm envolve perdas e ganhos. Escrever em um teclado ajuda a organizar o pensamento em etapas e sedimenta o aprendizado da ortografia, visto que as correes so em tempo real. Maija Opettaia, professora de escola pblica na Finlndia e experiente na comparao entre as duas escritas, afirma que teclar estimula os alunos a escrever mais, porque eles esto habituados  plataforma digital, e a construir argumentos ricos, com a internet a um clique. Sem falar na adequao ao mercado de trabalho, hoje totalmente digital. "Digitar com fluncia  uma competncia essencial", ressaltou o Conselho de Educao finlands, ao justificar sua deciso de remover a caligrafia do currculo. 
     A escrita a caneta  uma atividade que no chega a dois sculos. "Se ela desaparecer, no ser o fim do mundo", pondera Joo Batista de Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto. O movimento est apenas comeando, mas, ao que tudo indica, no tem volta. "No futuro, teclar tende a ser to natural quanto escrever no papel hoje, o que acabar se refletindo no processo de alfabetizao", prev o doutor em lingustica Marcelo Buzato. E, se chegar o dia em que ningum mais souber escrever a mo, sempre se poder apelar para o Bond  um rob americano que imita com perfeio, usando caneta-tinteiro sobre papel, a boa, velha e cada vez menos usada caligrafia. 


6#4 SADE  ADEUS AOS GRANDES,  A VEZ DOS PEQUENOS!
Um novo padro esttico j predomina nas clnicas de cirurgia plstica: as mulheres ainda pem prteses de silicone, mas em tamanho menor. Sorte de quem nasceu com pouco peito.
CAROLINA MELO

18% foi a queda do nmero de implantes de silicone no Brasil em 2014. 
O tamanho mdio do silicone aplicado era de 350 ml.
50% foi o aumento do nmero de cirurgias para a reduo de prteses mamrias.
Agora o tamanho preferido  de 200 ml.

     Sinuosos, salientes, sutis, sensuais, siliconados ou no, os seios talvez sejam os rgos da anatomia feminina mais adequados para narrar a histria da civilizao e seus humores. Quando foi necessrio protestar, nos anos 60, as mulheres tiraram o suti para queimar a lingerie, como sinal de liberdade. Na Renascena, se era o caso de celebrar a fertilidade da natureza, a fora do leite materno, gnios da pintura os fizeram amplos, volumosos, mesmo em figuras da Bblia. Quando elas ingressaram no mercado de trabalho, bom mesmo era t-los diminutos, ou quase no t-los. Doentes, abrigam o mais frequente dos cnceres, o de mama. Os seios, enfim, ajudam a retratar um tempo, qualquer tempo, numa longa aventura humana feita de sstoles e distoles. Ora crescem, ora diminuem. 
     As estatsticas ajudam a traduzir o momento no qual vivemos. Um levantamento realizado por VEJA nos mais procurados consultrios de cirurgia plstica de So Paulo e do Rio de Janeiro mostrou que no ano passado o nmero de cirurgias de reduo ou retirada de prteses de silicone aumentou 50%. Os procedimentos em direo contrria, de colocao de implantes, caram 18% no mesmo perodo. Adeus aos grandes,  a vez dos pequenos! 
      tendncia que vem de fora, como costuma acontecer. Em setembro de 2014, a magrrima atriz inglesa Keira Knightley, de 30 anos, estrela de Piratas do Caribe, posou para a revista americana Interview de cabelo molhado, cala preta, luvas rendadas e seios  mostra. O topless, sucesso estrondoso nas redes sociais, imediatamente viralizado, para usar um jargo de nosso tempo, s ocorreu mediante uma condio inegocivel imposta por Keira: seus peitos, naturalmente pequenos, no poderiam ser aumentados por meio de programas de computador. O pedido foi prontamente aceito (e louvado) pelos editores da revista. H onze anos, Keira passara por uma experincia oposta. Em 2004, teve seus seios inadvertidamente inflados no pster de divulgao do filme Rei Arthur, no qual era a protagonista. Keira, por sorte, tem hoje a silhueta delgada adequada aos novssimos padres de beleza, sem exageros. A curva esttica mudou e ela est bem na foto. Quem a natureza moldou de outro jeito faz o que pode  a nova-iorquina Scarlett Johansson, cujas fotos denunciam a exuberncia, depois multiplicada com silicone, tratou de reduzir o tamanho. 
     As prteses mais implantadas hoje em dia tm 200 mililitros de volume, o equivalente a uma xcara de ch ou a um suti tamanho 38 ou 40. So medidas exponencialmente diferentes das que caracterizavam as prteses prediletas nos anos 90, tornadas padro de gosto: 350 mililitros, tal qual duas xcaras de ch ou um suti tamanho 42 ou 44. Como ocorre com qualquer procedimento cirrgico, a troca de prtese traz riscos  paciente. Esse risco  um pouco maior em relao ao que se corre com a tcnica de aumento dos seios. O implante requer basicamente uma inciso de cerca de 5 centmetros na dobra inferior da mama. Na operao de diminuio, a mulher  submetida a mais dois cortes, um ao redor da arola, outro de 6 centmetros no sentido vertical. O motivo: h sobra de pele. O cirurgio faz ento as duas incises para a retirada do tecido. O nmero maior de cortes torna a recuperao cirrgica mais lenta. Na operao de substituio de silicone, o tempo  de trs a quatro semanas, o dobro se comparado ao da cirurgia de colocao de silicone. "Ainda assim,  um dos procedimentos mais seguros no universo da cirurgia plstica", diz Eduardo Kanashiro, cirurgio plstico do Hospital Santa Marcelina, em So Paulo. 
     Para muito alm das possibilidades da medicina, cada vez mais amplas, o mistrio  tentar entender por que cada perodo histrico tem seu par de peitos, de acordo com as mudanas de padres estticos e comportamentais. Uma opo, hoje,  explicar a predileo pelos pequenos por serem mais prticos para o definitivo ingresso da mulher no mercado de trabalho e tambm por combinarem com atividades esportivas, compulsrias. Os grandes, na verdade, atendem mesmo ao imaginrio popular atrelado  evoluo da espcie, segundo o qual a quantidade de leite materno est associada ao tamanho das mamas. No  verdade. "A produo de leite decorre de um processo neuroendcrino e independe do tamanho dos seios", diz o cirurgio plstico Eduardo Sucupira, do Rio de Janeiro. As mamas so constitudas por gordura e glndulas e tm como funo primordial produzir leite. E essa propriedade  cumprida  perfeio at pelos mais diminutos seios  as mamas dobram de tamanho durante o perodo de lactao. A maioria dos mamferos s desenvolve seios durante o aleitamento dos filhotes. Os humanos so a exceo, com peitos salientes desde a adolescncia. Uma das explicaes mais aceitas para essa fascinante particularidade  o fato de os seios servirem de atrativo sexual. Na pr-histria, antes da descoberta do fogo, o homem muitas vezes dependia do tato para escolher uma parceira dentro das cavernas escuras. Os seios, portanto, seriam primordiais. Eles ainda o so e sempre sero  com ou sem silicone. E independentemente do tamanho. 

UMA PEQUENA HISTRIA DO PEITO 
A oscilao da silhueta feminina foi sempre ditada pelos padres estticos e comportamentais de seu tempo.

Sculo XVI
A fartura era o smbolo de sade e poder econmico nos burgos da Alta Renascena. Mesmo em telas de cunho religioso, bonito era mostrar mulheres rolias, com seios amplos, em forma de ma 
O ideal esttico: a Santa Maria Madalena do italiano Ticiano 

Sculo XVIII 
A moda no perodo rococ eram os seios fartos, quase pulando para fora do corpete. Diz a lenda que as taas de champanhe foram moldadas  forma dos seios da rainha 
O ideal esttico: Maria Antonieta 

Anos 20 
A participao da mulher no mercado de trabalho aumentou significativamente depois da I Guerra Mundial. O padro de beleza pedia praticidade, com seios pequenos 
O ideal esttico: a atriz Louise Brooks 

Anos 50 
Com a expanso do cinema e a popularizao das grandes estrelas femininas, os seios fartos voltaram a ser valorizados. Foi criado o primeiro suti com sustentao para levantar o busto 
O ideal esttico: as atrizes Sophia Loren e Jayne Mansfield 

Anos 60
A exploso populacional do ps-guerra, conhecida como baby boom, resultou em uma grande quantidade de jovens na dcada de 60. As revistas de moda valorizavam a juventude, concedendo aos adultos ares de adolescente. Os seios eram minsculos 
O ideal esttico: a modelo inglesa Twiggy  

Anos 70 
A cultura hippie fez surgir a moda unissex - homens e mulheres vestiam-se de maneira parecida e tinham cabelos longos. Para diferenciar os sexos, a referncia principal para as mulheres eram os seios fartos. Entre os homens, a barba 
O ideal esttico: a atriz Beverly D'Angelo 

Anos 90 
Criado para fins estticos nos anos 60, o silicone passou a ser largamente utilizado somente trinta anos depois, com os avanos tecnolgicos e a segurana do produto. As cirurgias bem-sucedidas viraram sonho de consumo das mulheres 
O ideal esttico: a atriz Pamela Anderson 

2015 
H uma revalorizao dos seios pequenos, o que remete  rotina prtica e  boa forma fsica. A mulher conquistou altos postos no mercado de trabalho, mas no abandonou os cuidados com a prpria beleza.  o melhor dos mundos 
O ideal esttico:  Scarlett Johansson. A atriz passou a exibir seios menores recentemente.


6#5 OLIMPADA  A UM ANO DOS JOGOS, LONDRES ESTAVA ASSIM... E O RIO EST ASSIM
Abril no Rio  FALTAM 366 DIAS

Compare a foto ao lado com a das pginas seguintes e alegre-se: apesar dos percalos, o Rio segue  risca o cronograma que resultou em sucesso nos Jogos de 2012, em Londres.
THIAGO PRADO

     Faltando um ano para os Jogos de 2012, Londres, a cidade-sede, exibia obras a pleno vapor e um ndice de andamento dos trabalhos vistoso: a vila olmpica j tomara corpo e 88% do planejado estava pronto. Sobre o Rio de Janeiro sempre recaiu justificada desconfiana acerca da capacidade de cravar o cronograma para a Olimpada de 2016. Uma mescla de burocracia, excesso de aladas e lenincia atravancou por anos obras fundamentais. S que o inesperado aconteceu, mesmo que o roteiro tenha ainda obstculos por vencer. Na quarta-feira 5  a um ano exato do grande espetculo , o prefeito do Rio, Eduardo Paes, vir a pblico anunciar uma marca que apaziguar brasileiros habituados com tudo feito em cima do lao: 80% das obras esto concludas.  apenas um pouco menos do que indicavam os pontuais ponteiros londrinos em prazo idntico. A comparao das fotos do Parque Olmpico das duas cidades, publicadas nas pginas desta reportagem, parece um jogo de sete erros, to sutis so as diferenas. 
     Algumas instalaes cariocas j poderiam at estar prontas   o caso das trs principais arenas do Parque Olmpico , mas o ritmo foi reduzido pela prefeitura de caso pensado. Uma vez entregues pelas empreiteiras, elas comeam a gerar custos de manuteno ao Comit Organizador. "So gastos desnecessrios por ora, j que os primeiros eventos-teste s ocorrero ali a partir de dezembro", explica um integrante do alto escalo olmpico. Percalos surgiram, sim, e um em especial ainda paira como uma nuvem. Sob os cuidados do governo do estado, a Baa de Guanabara, sede das competies de vela, deve chegar a 2016 longe da meta de 80% do esgoto tratado. Uma pesquisa divulgada na semana passada mostrou que os atletas podem at contrair doenas devido aos vrus e bactrias presentes em suas guas. Dois outros pontos preocupavam, mas agora no mais: o veldromo, que ficou um tempo paralisado em razo da situao financeira da empresa responsvel, e o Complexo de Deodoro, base de onze das 41 modalidades em disputa. Deodoro foi passando de mo em mo  do governo federal ao estadual  sem um tijolo  vista, at que, em 2013, o Comit Olmpico Internacional (COI) soou o alerta. A prefeitura assumiu o complexo, e as coisas comearam a andar. Metade das obras foi concluda. 
     H uma confluncia de agendas que conspira a favor dos Jogos cariocas. De um lado, o COI busca no Rio um carto-postal de uma era sem a habitual megalomania arquitetnica. Quer austeridade, para usar uma expresso em voga. Haver nesta edio vrias estruturas feitas de blocos que sero desmontadas quando a festa acabar. O COI deseja um espetculo condizente com o atual momento de economias em baixa; do contrrio, o nmero e a qualidade de candidatos a sede olmpica continuaro a minguar. Enquanto Londres custou o equivalente a 43 bilhes de reais, o Rio sair por cerca de 38,2 bilhes. L, 80% do dinheiro era pblico, aqui sero 40%. Fatos recentes reafirmaram os novos tempos. Tquio, sede da Olimpada de 2020, decidiu suspender a construo de uma arena de design futurista assinada pela prestigiada Zaha Hadid (valor: 2 bilhes de dlares), e Boston retirou-se da briga para receber os Jogos de 2024. No lado das autoridades brasileiras, se tudo sair a contento, o prefeito Eduardo Paes, do PMDB, ter uma boa plataforma para entrar na corrida presidencial. Dilma Rousseff poder, enfim, colar  sua imagem algo que deu certo.  margem dos jogos polticos, fica uma boa notcia nestes tempos em que elas so to raras: pelo menos at agora, os Jogos do Rio vo bem. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 5.8.15

     7#1 TELEVISO  A FILA ANDA
     7#2 LIVROS  UM GIGANTE SINGULAR
     7#3 CINEMA  ALMA LITERRIA
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - !!!!!!!!!!!!!!

7#1 TELEVISO  A FILA ANDA
Os atores e as tramas passam, mas o flego de Malhao no se esgota: com vinte anos, a novela  uma usina de inovaes para a Globo. 
BRUNO MEIER

     Um anncio nos jornais convocava jovens que gostassem de escrever para participar de um curso de autores da Globo. Era 1994, o carioca Emanuel Jacobina tinha 31 anos, inscreveu-se nessa tradicional porta de entrada para novos roteiristas da emissora e foi aprovado. Antes de ser contratado, contudo, precisava passar por uma prova: a criao da sinopse de um novo programa. Jacobina encarou a tarefa em dupla com a conterrnea Andrea Maltarolli. Mas, enquanto Jacobina sonhava com um programa sobre adolescentes do subrbio, a parceira preferia criar uma srie para adultos ambientada em uma academia de ginstica. A soluo foi fazer um hbrido: um seriado sobre adolescentes tendo como cenrio uma academia. Malhao entraria no ar em abril de 1995, tempo recorde para os padres da emissora. Vinte anos depois, a inveno de Jacobina e Andrea (que morreu em 2009)  o projeto dramatrgico mais longevo da histria da TV brasileira. Com 5135 episdios a ser completados nesta segunda-feira, j supera em quase nove vezes o total de Redeno, novela dos anos 60 que detinha esse recorde com seus 596 captulos. Para um programa que nasceu sem pretenses, Malhao revelou-se de um flego invejvel. 
     O segredo da vida longa  que, apesar de Malhao ser classificada como novela, seu formato lembra mais o das sries americanas de antologia: quando a receita parece se esgotar, a Globo muda elenco, trama e cenrio para buscar a sintonia com a juventude de cada hora. Do culto s academias que lhe deu origem, Malhao conserva s a meno no nome. Desde ento, sucederam-se tramas que refletiam questes pontuais de comportamento, do debate sobre a aids  paixo pelos vampiros da srie Crepsculo. A ttica de eterna reinveno possibilitou tirar lies de expedientes bem-sucedidos e sobreviver a equvocos (veja o quadro nas pgs. 106 e 107). Em suma: a fila de Malhao anda que  uma maravilha. 
     Com a consumao de mais um desses revezamentos gerais, em 17 de agosto, vai se fechar um ciclo: Jacobina, o inventor remanescente da novelinha, voltar para escrever a prxima temporada. Os atuais roteiristas-chefe, Rosane Svartman e Paulo Halm, assim como o casalzinho formado por Rafael Vitti e Isabella Santoni, daro lugar ao time liderado por Jacobina e s novas apostas de rostinho bonito Marina Moschen e Nicolas Prattes. A turma que chega receber a tocha bem acesa: se Malhao j ostentou ndices mais vistosos no passado, sua audincia continua muito respeitvel dentro da realidade atual da TV aberta. A mdia no Ibope  de 17 pontos em So Paulo, mas no raro o ndice encosta no de atraes expressivas do horrio nobre. H trs semanas, o programa ficou s 0,5 ponto atrs do Jornal Nacional. 
     Para alm da audincia, Malhao se tornou um xod da Globo porque permite  emissora sentir o pulso do presente e projetar o comportamento da audincia no futuro. O programa sempre foi um laboratrio para formar autores e atores. Mas agora virou uma incubadora em sentido mais amplo: ali se testam novas formas de estabelecer pontes com a chamada gerao conectada. "Malhao  o programa com o qual mais podemos experimentar e inovar", diz Monica Albuquerque, diretora de desenvolvimento artstico da emissora. Entre os roteiristas h um especialista em msica e um escritor com a misso de incorporar s falas os novos modos de se comunicar da juventude. Um comit de internet discute maneiras de manter o programa vivo com a profuso de aparelhos que disputam a ateno dos jovens, como celulares e tablets. "Queremos que o garoto que est fixado em seu celular levante a cabea para ver TV", diz o novo diretor-geral, Leonardo Nogueira. 
     A tarefa de se aproximar da juventude no  s dos autores. J passaram pelo programa mais de 500 atores, de gente que sumiu (ou est na Record) a estrelas do horrio nobre. Mas cabe aos 46 atuais uma funo que os de antigamente no tinham: ser soldados do programa fora da TV. H um ms, o mocinho, Rafael Vitti, decorava textos de vdeo para o site do programa e redes sociais. "Hoje est difcil gravar", desabafou a VEJA o sobrecarregado ator. Na pgina do programa no Facebook, com 10,9 milhes de seguidores, os personagens debatem a trama e mostram bastidores. Os vdeos so rpidos e com planos fechados, feitos para ser vistos no celular. O prximo desafio da Globo  propagar vdeos pelo WhatsApp. 
     Malhao muda para se antenar com os novos tempos, mas certas coisas permanecem iguais. Os romances adocicados ainda so seu forte. Centrar o enredo na emoo permite atingir tambm as donas de casa, que so quase metade da audincia. O programa  uma janela para as mes se informarem sobre o universo da prole. Mas elas consomem esse pacote instrutivo sob a embalagem romntica de folhetim. Para a Globo, Malhao conserva outro atrativo: no h produo de melhor custo-benefcio. Cada captulo sai por 180.000 reais, uma pechincha perto dos 700.000 reais que se gastam em um captulo de novela das 9. Um dos trunfos que tornam a produo mdica  o cenrio: as locaes se sucedem, mas mantm a caracterstica de ser ambientes coletivos nos quais se gravam quase todas as situaes. A academia de outrora virou escola e, hoje,  um complexo de artes e lutas. "Tiramos o aspecto de fundo de quintal que o programa tinha", diz o diretor de ncleo Jos Alvarenga Jr. 
     Outra coisa que no mudou em Malhao foi o status dos atores: perto da folha de pagamento de uma estrela de novela das 9 como Giovanna Antonelli (salrio na casa de 130.000 reais mensais), o holerite de seus protagonistas  pfio (3500 reais). "E olha que j foi menor", diz uma ex-estrela. Mas no se deve ter pena: alm de contarem com motorista e apartamento na praia carioca da Barra da Tijuca, eles aumentam os ganhos com aparies em eventos. H quatro meses, iniciou-se a escolha dos novos atores. "Antecipamos a seleo para entrar no ar com um elenco mais afiado. Geralmente, as temporadas comeam com atores muito ruins", diz Jacobina. Elenco escalado, h a torcida para os anjinhos conterem os impulsos adolescentes. J se viu uma atriz ter de repetir uma cena 27 vezes e um ator chegar ao trabalho levemente alcoolizado. "Em casos extremos, mandamos para um psiclogo", diz o diretor Luiz Henrique Rios. So as dores da eterna juventude.

AS ENCARNAES DE MALHAO
Em vinte anos de histria, a novelinha da Globo extraiu lies de seus xitos e fiascos. Eis suas sete fases mais emblemticas.

1995
Fase academia
Criado numa oficina para formar novos roteiristas, o programa estreou com um cenrio que justificava seu ttulo. Na academia Malhao, na Barra da Tijuca, circulavam tipos juvenis vividos por atrizes como Fernanda Rodrigues, Susana Werner e Carolina Dieckmann - quase irreconhecveis de to novinhas. Romances e cuidados com o corpo dominavam a trama 
Resultado: com sucesso acima do esperado, deu origem ao projeto mais longevo na dramaturgia da Globo

1998
Fase ao vivo
No af de inovar, o programa apostou em edies ao vivo e interaes com o pblico via telefone e internet. Chamado de Malhao.com, o novo formato inclua conversas entre o elenco e os espectadores direto de um nico cenrio, o quarto de Mocot (Andr Marques). Mas os atores, um tanto confusos, no conseguiam atuar e improvisar ao mesmo tempo 
Resultado: fiasco total. O ibope caiu de 30 para 14 pontos, e a novela volta e meia perdia para o seriado mexicano Chaves, do SBT

1999
Fase "cabea"
Malhao passou a investir em temas srios e merchandising social, com o intuito de atrair uma audincia mais adulta. At 2005, exibia cerca de 40% das aes desse tipo nas novelas da emissora, batendo as tramas de Manoel Carlos e Glria Perez. O drama de Erica (Samara Felippo), jovem que tinha aids, abriu a porteira para tratar do aborto  homossexualidade 
Resultado: o xito da ideia estabilizou a audincia na casa dos 30 pontos, ndice que hoje nem mesmo a novela das 9 alcana 

FIM DE 1999
Fase escolinha
Um novo diretor, Ricardo Waddington, fez uma alterao radical: a antiga academia deu lugar ao colgio Mltipla Escolha. Para tanto, arrumou-se um atalho simples: aps enriquecer, o personagem de Andr Marques vendia a academia a um professor (Nuno Leal Maia). O novo cenrio reduziu custos de produo, pois quase tudo era gravado em um s local 
Resultado: o colgio durou onze temporadas e foi decisivo para a sobrevivncia da atrao

2005
Fase musical
A fictcia Vagabanda  um marco na histria do programa. O trio formado pelo encrenqueiro Gustavo (Guilherme Berenger), pela bad girl Natasha (Marjorie Estiano) e pelo riponga Catraca (Joo Velho) ganha um concurso e grava um disco de sucesso. Fora da atrao, o grudento tema de Natasha tornou-se campeo de downloads e impulsionou a carreira musical de Marjorie 
Resultado: foi o maior acerto em vinte anos. No auge, a Vagabanda rendia 42 pontos no Ibope

2011
Fase sobrenatural
A Globo tentou emular um fenmeno popular do perodo, os livros sobre anjos. O nome e a carinha de bom-moo do protagonista Gabriel (Caio Paduan) denunciavam sua natureza angelical. O programa tambm bebia da saga Crepsculo: Gabriel salva uma amiga de um acidente do mesmo jeito que o vampiro Edward livra Bella de um atropelamento no primeiro filme da srie 
Resultado: em vez de ajudarem, as foras do alm derrubaram a audincia. A histria teve de ser refeita

2015
Fase viral
H um esforo coordenado entre roteiristas e especialistas nas ferramentas da tecnologia digital para estreitar a comunicao com a juventude conectada. A histria da TV tem desdobramentos nas redes sociais, blogs, websries e vdeos para celular. A nova fronteira  a participao dos fs: na atual temporada, uma cena criada por uma adolescente virou parte da trama 
Resultado: a estratgia fez de Malhao o programa da Globo de maior repercusso na internet - e um manancial de ideias capazes de resgatar a sintonia entre os jovens e a TV aberta


7#2 LIVROS  UM GIGANTE SINGULAR
A nova edio da poesia completa de Ferreira Gullar reafirma que o poeta  muito maior que sua militncia poltica. Sua obra o coloca no panteo das letras nacionais.
NELSON ASCHER

     Prestes a completar 85 anos, o poeta maranhense Ferreira Gullar lana uma nova edio de sua poesia completa, uma das grandes realizaes da literatura brasileira e tambm uma histria de buscas e autodescobertas. Pois, como se comprova em Toda Poesia (Jos Olympio; 664 pginas; 70 reais), ao contrrio dos cantores, poetas encontram e refinam a prpria voz com a idade. J seu primeiro livro, Um Pouco Acima do Cho  que, publicado aos 18 anos, foi mais tarde renegado , tinha muito de estranho e interessante na combinao de talento bvio com escassez de recursos literrios, uma vez que o repertrio de formas e estilos do poeta se limitava quilo que pudera amealhar numa biblioteca de provncia. Logo, porm, ele encontra na poesia de seu tempo uma linguagem condizente e, mudando-se para o Rio de Janeiro, comea a escrever coisas diferentes, que reunir em A Luta Corporal (1954). Os jovens concretistas de So Paulo vem fortes afinidades no livro, o que d incio a uma amizade colaborativa. Mas essa aproximao se encerra na ruptura de 1959, quando Gullar, com alguns artistas plsticos, funda o neoconcretismo, movimento que capitaneia at que sua politizao e a agitao dos anos 60 o transformam no poeta brasileiro engajado por excelncia. 
     Sua militncia no se restringiu, obviamente,  literatura. Ele lutou por causas diversas, ingressou no Partido Comunista Brasileiro, foi perseguido e preso pela ditadura, exilou-se e , hoje, um crtico da esquerda que est no poder. Pode-se discordar de qualquer posio poltica tomada pelo poeta, mas no pr em dvida sua honestidade. Ele tambm sempre defendeu muito bem seus pontos de vista em artigos e ensaios. No entanto, quando quer que tentasse coloc-los em verso ou incorpor-los  poesia, esta lhe opunha uma resistncia ferrenha, evidente nos Romances de Cordel (1962-67), que escreveu para o Centro Popular de Cultura da UNE, mas visvel nos seus outros poemas polticos. Assim como, no incio, a dico parnasiana no lhe oferecia recursos para dar forma  sua poesia, a grande poltica tampouco parecia ter afinidade com tudo o que, nos seus poemas, se tornava cada vez mais caracterstico, expressivo, indispensvel. 
     Gullar continuou escrevendo o que  melhor chamar de poesia militante  por exemplo, seu poema sobre a morte de Che Guevara, que d ttulo  coletnea de 1975 Dentro da Noite Veloz  talvez por sentir que fosse seu dever, algo decerto acentuado pelo golpe de 1964. Isso o levou a ser visto como o poeta perseguido, um bardo da resistncia. Mas seguir enfatizando isso como seu principal mrito equivale, trinta anos aps o fim da ditadura, a reduzir uma carreira rica, de mais de sessenta anos e ainda em curso, a nota de rodap de um episdio detestvel da histria nacional. Ademais, todos os elementos de sua viso de mundo, incluindo os polticos, transparecem mais do que claramente nos muitos poemas sobre o dia a dia: o mero acordar de manh, escovar os dentes, abrir a janela, descer  rua, vagar pela cidade, entrar no mercado e comprar frutas (as frutas que unem seus primeiros livros aos mais recentes, bem como ligam sua poesia a Czanne e s naturezas-mortas holandesas, lembrando que o poeta Gullar  tambm crtico de arte). 
     E  isso que torna seu Poema Sujo (1975) uma obra bem-sucedida. O texto de Gullar  menos uma autobiografia que um testamento potico  maneira do poeta tardo-medieval francs Franois Villon (que escrevera o seu prprio na priso em que aguardava o enforcamento). Escrito quando o poeta brasileiro vivia no exlio em Buenos Aires e temia ser assassinado pelas foras da represso, est eivado de referncias polticas, mas contextualizadas como parte de um tempo recuperado. Ou seja, lida com a totalidade de sua vida: infncia e adolescncia, So Lus do Maranho e Rio de Janeiro, a descoberta da poesia, sexo e artes visuais, a opulncia do mundo e a misria das pessoas, alm da poltica. Se h muito dessa ltima, o problema  da vida em questo, no do poema. E, em cada novo livro seu, o que tem aparecido  uma poesia cada vez mais precisa e seca, mais ampla e sutil, mais apaixonada pela prpria poesia, pelas artes, pela singularidade humana e mais realizada tecnicamente por detrs de uma enganosa simplicidade. 
     Uma consequncia do rompimento dos anos 50 com os concretos foi a rixa de mais de meio sculo entre Gullar e  Augusto de Campos  que, aos 84 anos, est lanando Outro (Editora Perspectiva), uma coletnea que, na sua brevidade, contm alguns dos mais belos poemas da lngua. A querela levou poetas, crticos e professores a tomar partido, chamando um participante de heri e o outro de vilo. Mas h uma maneira fcil de no cair nesse equvoco: ler a obra de ambos. Quem o fizer s pode concluir que tudo o que os aproxima  muito mais do que quanto os separa, desde o tipo de poesia que fazem e admiram at os poetas com os quais aprenderam sua arte (Drummond, Joo Cabral, Mallarm). E uma rixa assim entre os dois maiores poetas brasileiros vivos no pode deixar de evocar um conto de Jorge Lus Borges no qual dois telogos medievais passam a vida se digladiando selvagemente por causa de divergncias insignificantes. Mas quando, depois de mortos e j no Paraso, um deles tenta explicar a Deus os argumentos de cada qual, Este no consegue ver diferena alguma entre eles. Pois, para Deus, ambos os polemistas eram a mesma pessoa. 


7#3 CINEMA  ALMA LITERRIA
Gemma Bovery brinca com o clssico quase homnimo de Flaubert  e prova que ningum perde em beber de boa fonte.
ISABELA BOSCOV

     No  de nascena, mas pelo casamento, que Gemma Bovery se tornou quase homnima de uma das mais clebres personagens da literatura mundial  a Emma Bovary criada pelo escritor Gustave Flaubert no romance de 1857. Ainda assim, Martin, o padeiro do vilarejo na Normandia para o qual a inglesa Gemma se mudou, insiste em adivinhar na sua nova vizinha a mesma trgica insatisfao da protagonista de Madame Bovary, que recorria a futilidades e a vazios casos adlteros para escapar da vidinha provinciana e do casamento montono. Se Martin v Gemma andando pelas trilhas, pensa em solido e descontentamento; se ela aparece na janela de casa, olhando ao longe, ele pensa em desejos recnditos, em vontade de se libertar. Martin, interpretado por Fabrice Luchini, um dos mais habilidosos atores franceses, pensa em outras coisas tambm quando olha as curvas frescas e generosas da forasteira  "l se vo dez anos de tranquilidade sexual", suspira ele ao ver Gemma metida em um vestido de vero. Gemma Bovery (a inglesa Gemma Arterton) de fato no  perfeitamente feliz. Casou-se no rebote de um fim de caso, foi trazida para um pas cuja lngua no fala e mora numa casa cheia de goteiras. Mas o verdadeiro descontente em Gemma Bovery  A Vida Imita a Arte (Gemina Bovery, Frana/Inglaterra, 2014), que estreia no pas nesta quinta-feira,  Martin, o parisiense que caiu na iluso de curtir a aposentadoria no campo mas acha a provncia uma chatice sem tamanho, que s quando sova a massa dos seus pes sente algum prazer sensual e que  um viciado na fuga proporcionada pela leitura de romances  comeando, claro, pelo clssico de Flaubert.  Martin, enfim, a verdadeira Emma Bovary desta histria. 
     J no ttulo, a comdia da diretora Anne Fontaine (de Coco Antes de Chanel) entrega tanto sua matriz quanto o esprito em que a utiliza:  ao mesmo tempo uma adaptao e uma brincadeira  um trocadilho, mesmo  com o livro de Flaubert. Pode-se imaginar que s funciona para quem est familiarizado com a obra desde os bancos da escola. Mas trata-se de um raciocnio equivocado: os grandes clssicos da literatura em geral atingem esse status e se tornam parte da cultura corrente justamente pela maneira como expem ou examinam elementos universais da natureza humana.  possvel (ainda que no seja desejvel) nunca ter lido Madame Bovary, ou a Anna Karenina de Tolsti, que a diretora usa no desfecho de seu filme, e mesmo assim reconhecer os temas fundamentais de que esses livros tratam  a inquietude tolhida pelas normas, a pequenez da vida cotidiana, o abismo irreconcilivel entre o desejo e a realidade. E essa  a razo por que tais obras definitivas no se prestam somente s adaptaes tal e qual: so matria-prima que pode ser moldada de mil maneiras diferentes e ainda assim reter a sua natureza. 
     Um exemplo surpreendente est em As Patricinhas de Beverly Hills, uma comdia de high school da diretora americana Amy Heckerling: entre tantas adaptaes esmeradas de poca j feitas do Emma de Jane Austen, esta  a mais atilada (veja o quadro) e a que mais profundamente compreende as personagens e as suas circunstncias  muito embora a autora nem sequer seja citada nos crditos. O mesmo ocorre em O Dirio de Bridget Jones (2001), uma deliciosa reimaginao contempornea de Orgulho e Preconceito, a obra mxima de Austen. Ou, por exemplo, em Trocando as Bolas, uma comdia de 1983 com Eddie Murphy e Dan Aykroyd, que  na verdade a histria arquetpica de O Prncipe e o Mendigo, de Mark Twain, acrescida de um choque de realidade (e de cinismo). Quem nunca achou flego para ler as mais de 2000 pginas de Guerra e Paz pode se iniciar na magnum opus de Tolsti de forma algo surreal, mas nem por isso menos eficaz: basta ver A ltima Noite de Boris Grushenko (1975), uma das melhores comdias da carreira de Woody Allen  em que o diretor de quebra d umas pinceladas tambm em Os Irmos Karamzov, de Dostoievski. J conhece Hamlet de trs para a frente? Ento divirta-se identificando as ligaes sutis que John Cusack faz com a pea em Matador em Conflito, de 1997. Ou assista  nica verso da Tempestade de Shakespeare que no resulta frustrante: a histria est toda l em Planeta Proibido, de 1956, um clssico da fico cientfica por direito prprio. No h adaptao, seja ela literal ou aliterante, que substitua o prazer da leitura do original. Mas Gemma Bovery, to ligeiro e brincalho, prova que ningum, nem o realizador nem o espectador, tem como perder quando se bebe dessa fonte. 

NO PARECE CLSSICO, MAS 
A arte da adaptao que, embora disfarada, faz jus ao esprito do original.

As Patricinhas de Beverly Hills (1995)
A histria: Cher (Alicia Silverstone)  rica, mimada e narcisista, mas no  m pessoa. Tanto que decide fazer uma boa ao e transformar em "popular" a desajeitada Tai (Brittany Murphy) - no que mete os ps pelas mos, aprende umas tantas coisas e compreende como  interessante o irmo postio (Paul Rudd), que sempre achou velho e chato 
Na verdade...  a adaptao mais inteligente, espirituosa e criteriosa de todas as muitas j feitas do romance Emma, de Jane Austen 

10 Coisas que Eu Odeio em Voc (1999) 
A histria: para poder namorar a menina de que gosta, um menino precisa antes cumprir uma condio - encontrar algum disposto a namorar a irm mais velha dela, Katarina (Julia Stiles), a garota mais brava da escola. Patrick (Heath Ledger) topa, mediante suborno; mas ento descobre que verdadeiramente gosta de Katarina 
Na verdade... trata-se da pea A Megera Domada, de Shakespeare, transposta com graa (e com o carisma do ento estreante Ledger) para um subrbio de Seattle 

E A, Meu Irmo, Cad Voc? (2000) 
A histria: no Sul americano dos anos 30, Ulysses McGill (George Clooney) foge da priso com dois outros trapalhes para buscar um tesouro enterrado e para evitar que sua mulher, Penny (Holly Hunter), aceite outros pretendentes. Um cego vaticina que eles vivero grandes aventuras, um grandalho de tapa-olho os ameaa, trs lavadeiras tentam seduzi-los com seu canto 
Na verdade... o filme dos irmos Coen , sem tirar nem pr, a Odisseia do poeta grego Homero 

A Mentira (2010) 
A histria: para no ter de admitir que  virgem, Olive (Emma Stone) inventa uma noite de sexo com um rapaz que ningum conhece. Mas a mentira se espalha e traz consequncias inesperadas: se por um lado a faco conservadora da escola milita pela sua expulso, por outro os alunos mais moderninhos passam a consider-la um cone 
Na verdade... essa comdia deliciosa ao mesmo tempo vira do avesso e homenageia A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, sobre uma adltera hostilizada em seu vilarejo 


7#4 VEJA RECOMENDA
DISCOS
BORN IN THE ECHOES, THE CHEMICAL BROTHERS (UNIVERSAL)
 No calendrio da msica pop, cinco anos podem equivaler a cinco dcadas. Gostos mudam, estilos musicais se renovam e o que era exemplo de modernidade pode se transformar em coisa do passado. Cinco anos separam Further, penltimo lbum dos Chemical Brothers, deste Born in the Echoes. Tom Rowlands e Ed Simons, porm, mantm o padro de qualidade que a dupla inglesa criou duas dcadas atrs  e que por razes comerciais foi batizado de EDM (electronic dance music, ou msica eletrnica danante, em portugus). Ainda que no repita a revoluo musical de discos como Exit Planet Dust (1995), o novo trabalho  bem-sucedido na proposta de trazer para as pistas faixas que, ouvidas no fone, revelam impressionantes detalhes de produo. O carro-chefe  o funk Go, que traz vocal do rapper Q-Tip (A Tribe Called Quest). Alquimistas da msica eletrnica, os Chemical Brothers exploram sonoridades do rock (a faixa-ttulo e Ill See You There, que lembra as pancadas minimalistas do baterista dos Black Keys) e contam com a participao da cantora St. Vincent (em Under Neon Lights) e do roqueiro Beck (Wide Open).

PARTIR, FABIANA COZZA (AG PRODUES)
 H quatro anos, a cantora paulistana Fabiana Cozza viajou at Santo Amaro da Purificao, na Bahia, para se encontrar com o violonista Roberto Mendes. Ela acalentava a ideia de gravar um lbum dedicado ao msico baiano. O projeto no foi adiante, mas serviu como ponto de partida do quinto lbum de Fabiana. Mendes assina cinco das catorze composies do ambicioso lbum, que traz a frica e suas conexes musicais como tema principal. H canes inspiradas no congado mineiro (Velhos de Coroa), na morna de Cabo Verde (Entre o Mangue e o Mar, da dupla Alzira E e Arruda), na msica angolana (Chicala, de Joo Cavalcanti) e na conexo cubana (Borzeguita, de Leandro Medina). Fabiana, cujo pai foi cantor da escola de samba Camisa Verde e Branco, confirma o status de uma das melhores intrpretes do cenrio atual da MPB.  uma cantora de voz potente e emisso clara  que, acima de tudo, coloca emoo na dose certa em suas interpretaes. A produo de Swami Jr., que tambm dirige os trabalhos da cubana Omara Portuondo,  outro trunfo. Ele criou arranjos elegantes e convocou msicos de qualidade como o baixista Marcelo Mariano (que d um show em onze faixas) e o pianista Andr Mehmari (Le Mali Chez la Carte Invisible).

CINEMA
JOGADA DE MESTRE (KIDNAPPING MR. HEINEKEN, HOLANDA/INGLATERRA/BLGICA, 2015. J EM CARTAZ NO PAS)
 Em 1982, o milionrio Alfred Heineken, da cervejaria que leva o nome da famlia, sofreu um sequestro que paralisou a Holanda. Baseado no livro-reportagem de Peter R. de Vries, este thriller reconstitui o crime desde antes mesmo de ele ser gestado, com o descontentamento de um grupo de amigos: sempre  beira da marginalidade, Cor (Jim Sturgess), Willem (Sam Worthington) e Jan (Ryan Kwanten) fizeram apostas ruins e esto na pindaba. Precisam de algo "grande": uma ao que no s renda muito mas que, no planejamento e na execuo, parea coisa de criminosos altamente profissionais, no de ps de chinelo como eles. A operao inclui um roubo a banco (para o financiamento), a construo de um bunker e extrema disciplina. Nem Alfred Heineken (Anthony Hopkins), porm,  o refm acuado com que eles contavam, nem o grupo est preparado para as tenses do processo que deflagrou. O maior mrito do diretor Daniel Alfredson est na reconstituio gil e na transio habilidosa da euforia para a agonia: com seu socialismo de botequim, seus machismos pueris e sua instabilidade emocional, os amigos so um desastre anunciado.

LIVRO
KINGMAKER  UMA JORNADA NO INFERNO, DE TOBY CLEMENTS (TRADUO DE GENI HIRATA; ROCCO; 576 PGINAS; 59,50 REAIS)
 H mais de 500 anos, a Inglaterra teve sua verso real das sangrentas disputas dinsticas de Game of Thrones: a clebre Guerra das Rosas  uma das inspiraes, alis, da srie do americano R.R. Martin. Ocorrido no sculo XV, o conflito entre as casas de York e Lancaster pelo trono ingls lanou o pas numa luta fratricida. Escritor e crtico do jornal The Telegraph, Toby Clements  obcecado pelo episdio desde a infncia. Na srie Kingmaker, cujo primeiro volume  este Uma Jornada no Inferno, ele usa a Guerra das Rosas como matria-prima de um romance histrico na linha dos best-sellers de Hilary Mantel e Bernard Cornwell. Ou seja: mescla aventura e rigor na reconstituio de poca. O livro narra o conflito pelo prisma da freira Katherine e do monge Thomas. Aps serem expulsos de suas ordens, ambos aderem ao exrcito dos York  ela, pela experincia em enfermagem, e ele, pelos dotes com o arco e flecha.  fascinante beber do conhecimento do autor sobre armamentos e tcnicas de combate do perodo.

DVD
RIPPER STREET  A PRIMEIRA TEMPORADA (INGLATERRA/IRLANDA, 2012. PARIS FILMES)
 Em sua delegacia, ilhada entre as favelas do East End londrino de 1889, o inspetor Edmund Reid luta no s contra o crime que prolifera nas ruas sujas, mas tambm contra os mtodos obsoletos e violentos da polcia metropolitana. Vivido por Matthew Macfadyen (que, entre seus vrios crditos, foi o melhor Sr. Darcy de todas as verses de Orgulho e Preconceito j feitas para a TV e o cinema), Reid  gentil e compassivo, mas, ao mesmo tempo, analtico e inflexvel  um defensor quase isolado da modernidade. E no  nenhum Sherlock Holmes. Tem mais a ver com Frederick Abberline, o inspetor-chefe que em 1888 tentou, sem sucesso, desvendar a identidade de Jack, o Estripador: boa parte da graa da srie da BBC est nos demnios que assombram Reid e em quanto so frustrantes as investigaes que ele conduz com seus parceiros  o bruto mas leal sargento Drake (Jerome Flynn) e o americano Homer Jackson (Adam Rothenberg), que tem noes muito pessoais sobre o que  estar na lei ou fora dela. 


7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
3- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
4- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG 
5- Nmero Zero. Umberto Eco. RECORD
6- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
7- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE 
8- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
9- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10- A Rainha Vermelha. Victoria Aveyard. SEGUINTE

NO FICO
1- S por Hoje e para Sempre. Renato Russo. COMPANHIA DAS LETRAS
2- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
3- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS 
4- Abilio. Christine Correa. PRIMEIRA PESSOA
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
6- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Gabriel Medina. Tulio Brando. PRIMEIRA PESSOA
8- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
9- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
10- O Papai  Pop. Marcos Piangers. BELAS LETRAS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- No Se Iluda, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
2- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
3- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
4- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- Amar e Ser Livre. Sri Prem Baba. AGIR
7- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
8- Gerao de Valor. Flvio Augusto d Silva. SEXTANTE 
9- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 
10- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo. PLANETA 


7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - !!!!!!!!!!!!!!
     O jornal O Globo, que comemorou noventa anos na semana passada, nasceu com um ponto de exclamao. "Voltam-se as vistas para a nossa borracha!", era a manchete estampada no alto da pgina da edio nmero 1, datada de 29 de julho de 1925. O assunto era a iminente visita de Henry Ford a Belm do Par, para negociar projeto de produo de borracha na Amaznia. Outros dois assuntos mereciam ponto de exclamao, na mesma pgina. Sob o ttulo "Succedem-se os attentados communistas em Varsvia", vinha o subttulo "Uma testemunha morta em meio da audincia do Tribunal!". Tratava de assassinato ocorrido durante julgamento de uma conspirao contra o presidente da Polnia. E sob o ttulo " assombroso o augmento dos automveis!" vinha um subttulo igualmente adornado pela exclamao: "De 2722 para 12.995 no espao de um anno!". A notcia saudava o salto no nmero de automveis importados entre os anos de 1922 e 1923  "um ndice no nosso progresso", segundo o jornal. 
     Vivia-se o apogeu do ponto de exclamao, e no s na imprensa. "So Paulo! comoo de minha vida...", escrevia Mrio de Andrade. O modernismo paulista insurgia-se mais ou menos contra tudo, em arte, mas no contra o esguio sinal grfico, sisudo na forma tanto quanto transbordante de sentimento, e to caro aos predecessores parnasianos e simbolistas. Na pgina 2 da mesma edio inaugural de O Globo dois outros ttulos apareciam com ponto de exclamao. "Este  o maior dos monoplios!", dizia um deles, referindo-se  acusao do deputado Vianna do Castello contra o contrato pelo qual a famosa Itabira Iron obtivera do governo a exclusividade na exportao do ferro de Minas Gerais. O outro era mais intrigante: "Nenhum rapto de crianas se verificou no Rio!". Ora, como se espantar com algo que no aconteceu? Depois de minucioso levantamento, delegacia por delegacia, o jornal julgava-se em condies de garantir que no tinham fundamento as notcias de "papes de crianas", responsveis por deixar "tantas mes afflictas e assustadas". 
     O Brasil de 1925 teria por volta de 33 milhes de habitantes (30.635.605 pelo censo de 1920); a cidade do Rio de Janeiro, 1,3 milho (1.157.873 pelo censo de 1920). A Presidncia era ocupada pelo mineiro Arthur Bernardes, que no ano anterior se safara de uma rebelio militar em So Paulo e no ano seguinte seria atormentado por outra, comandada pelo capito Lus Carlos Prestes. O mundo da Repblica Velha iria desabar em 1930  e com ele o ponto de exclamao na literatura, a comear pela poesia. Simultaneamente  tomada do poder poltico por Getlio Vargas, o poder do verso era aambarcado pelo mineiro Carlos Drummond de Andrade, que no Poema de Sete Faces, abertura de seu livro de estreia (Alguma Poesia), teve enormes oportunidades de pespegar um ponto de exclamao (por exemplo, na estrofe final: "Eu no devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo") e no o fez. 
     Na imprensa a resistncia do controvertido pontinho durou mais. Sua decadncia pode ser datada das reformas modernizantes, primeiro no Dirio Carioca, depois no Jornal do Brasil, nas dcadas de 50 e 60. Pelo menos, era contra essas publicaes que se insurgia Nelson Rodrigues, o mais notrio saudosista do ponto de exclamao que o Brasil j teve. O dramtico, passional Nelson Rodrigues dizia que, se o mundo acabasse, o Dirio Carioca o noticiaria sem ponto de exclamao; e se os EUA fossem aniquilados, no perodo da Guerra Fria, os leitores do Jornal do Brasil igualmente receberiam a notcia na infame frieza de um ponto-final. 
     Que resta hoje do sinal que gozava de tanto prestgio na fundao de O Globo? Na imprensa ele sobrevive nos humoristas Tutty Vasques e Jos Simo, mas isso no conta; eles o usam de gozao. Pulando-se tais colunas, percorre-se um jornal ou uma revista de cabo a rabo sem deparar com um nico e escasso exemplar. Nos livros so igualmente raridade. Mas eis que, para conforto de uns e aflio de outros, o teimoso pontinho encontra sua renovao e sua revanche onde menos se esperava, a internet, o mais moderno dos meios de comunicao, o engenho-smbolo de uma nova era. "Bom dia!", "Obrigado!", "Segue a nossa foto!", "Recebido!", "Beijos!", "Olha o que me ocorreu!", "Bom ter notcias tuas!". O bom e efusivo povo brasileiro, na amplido acolhedora do universo virtual, d meia-volta na histria e reencontra-se com o calor, a surpresa e o espanto das primeiras manchetes de O Globo. 

